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Especial com Alcivando Lima – ABÓBORA DE NOVO?

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Especial com Alcivando Lima - ABÓBORA DE NOVO?

“IGUALDADE: Todo brasileiro é igual perante a lei, contanto que não seja pé de chinelo, porque aí é culpado mesmo.”. (Luiz Fernando Veríssimo – Jornalista, escritor, cartunista, humorista, roteirista).

Há muito que estão convivendo a quarentena imposta pela praga do covid-19. Nos primeiros dias soltaram exclamações de prazer e quase se sentiram felizes. Pouco a pouco, a coisa começou a ficar cacete com a convivência ininterrupta de 24 horas. Ambos perderam o emprego pela ação demoníaca do coronavírus. Ele, zanzando de pijama ensebado, afetava o pundonor ao coçar as partes pudicas impunemente e ela, se descuidando, vestia um penhoar que, pelo uso, exalava uma inhaca, um bafio de cachorro molhado. O convívio abalou-se e um não agüenta ver a cara do outro sem evocar pensamentos homicidas.

— Abóbora de novo? Gritou ele, esgoelado. Raramente almoçava em casa. O rega-bofe era sempre nos finos restaurantes com finos clientes da fina empresa em que trabalhava. Nunca, em tempo algum, nesse ou noutro país, aliás, nunca saíra da pátria amada, nem pra comprar bugigangas ali no Paraguai, levantara a voz, passou a urrar qual um leão, assustando por demais aquela frágil e dócil criaturinha.

— Ué? — retrucou ela, com ar travesso — Tu é louco por abobrinha batida, cambuquira, abóbora de porco, abóbora baiana, abóbora com jiló, doce de abóbora que sua mãe…

— Epa, devagar com o andor — retorquiu ele, berrando e gesticulando como se carateca fosse — não ponha minha santa mãe no meio. Se fizeres um esforçozinho, lembrarás que nunca falei da jararaca da sua mãe, que mexe e vira aporrinhava seu pai até que ele, aqui ó… Vazou no mundo.

— Ah é?… Agora é jararaca, é? — Contra atacou de cá aquela fêmea que ainda trazia um resquício de sensualidade dentro daquele penhoar morrinhento. — Mas num era, enquanto tu eras um ilustre pé rapado. — continuou ela, escumando os cantos da boca, com vontade de esfarelar a jugular daquele miserento — Por ingratidão, você não lembra quando mamãe, coitadinha, quis pagar um curso pra você aprender a empregar o pronome de tratamento adequado ao abordar autoridades civis, militares e eclesiásticas? Por exemplo, o bispo é Vossa Reverendíssima e não Dom Padre, viu, trem bobo! E o beija-mão, é só uma sacra reverência, um faz de conta de roçar de lábios, igual o que Papa faz ao beijar o solo da pátria que visita, não é pra deixar um rastro de lesma gosmenta. Dói o coração ao lembrar de ver o coitadim do bispo desesperado à cata dum trem qualquer pra limpar aquela coisa nauseabunda e, no fim, ô diacho, tratá-lo por Vossa Alteza, matando de vergonha a mim e mamãe, que pureza de alma, que caiu de cama por muitos dias… Lembras?

Essa avalancha de impropérios não era própria daquele carinhoso, gentil e cortês ente feminil e agora, puxa-vida, estava ali na sua frente, doidivana, fedendo a caititu e gritando feito uma jega no cio. Irado, desejou que o vírus tirasse a terrinha do calcanhar dela, mas, arrependido, deu três tapinhas na boca, enxotando tal pensamento nefasto. Deus me livre.

— A epidemia ta assolando e assombrando o mundo e não garra esse mocorongo peidorreiro que, ao comer, faz um barulho de cavalo mastigando milho e depois de beber umas pingas, vem pra riba de mim com um bafo de tábua de chiqueiro que me dá vontade de gumitá. Tomara que o virus tire a terra do calcanhar dele, desejou ela, mas, arrependida deu três tapinhas na boca, enxotando tal pensamento nefasto. Deus me livre.

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