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Especial com Alcivando Lima – TRÊMULOS SUSPIROS

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Não é tão comum morrer de  amor, mas, neste momento, em todas as partes do mundo, milhões morrem por falta dele. James Baldwin – 1924/1987 – (romancista, dramaturgo e crítico social estadunidense).

— Todo dia, ao enfrentar o diabo desses ônibus ou esses ônibus do diabo, tenho estremecimentos que me deixam abalado dos pés à cabeça.

— Quê que é isso, cara? Falando sozinho? Endoidou?

— Quase, se essa zorra continuar não demoro em lá chegar.

— Por quê? Muita cloroquina ou nadica de nada?

— Nada disso! Ouça, analise e me diga se não é pra se endoidar: O governador pede e decreta para não andar sem máscara, não se aglomerar em bares, restaurantes e, pelo amor de Deus, parem com essa mania de tomar cachaça nos copos sujos, com rela-rela nas boates, nos pancadões e evitem, por amor à Deus, a pororoca do covid-19 que está matando o povo, coisa que eu concordo plenamente.

— E por causa disso queres mandar todo mundo para p* que pariu?

— Não é isso, cara! Tem um treco aí que não bate, a toada ta manca com alguns pagando o pato sozinhos. Arrocha de um lado e bambeia do outro. Multa-se o dono do butiquim, do restaurante e correlato e se houver reincidência, o fiscal dá uma apitada e aparece oitocentos policiais à paisana ou fardados e encaixotam o butequeiro no camburão. O transporte coletivo é um formigueiro com suas latas de sardinha, carregando milhares de trabalhadores e demais gentes que vão dormir nas portas dos hospitais ver se consegue marcar uma consulta pra daqui dois, seis mês à aquelas que vão para a casa dos outros fofocar a vida alheia, e quando se chega aos terminais, Ave-Maria, tem seiscentos pessoas para cada ônibus (quatrocentos e oitenta sem máscaras) e, Deus do céu, tome empurrão, safanão, pescoção, subaqueira de trasantonte, tarados de todas as matizes, e ninguém, mas ninguém mesmo, vai la multar os empresários, rosnar grosso ou esfregar o decreto na cara deles ou fechar suas garagens entupidas de ônibus, e nem se vê um policial — à paisana ou fardado — conduzindo o meliante para o camburão, enquanto outros tem seus botecos fechados. Deu pra entender?

— Deu! Ou esse setor é o fermento do diabo no bolo das diferenças, ou o butequeiro é bicho doido ou, pra não cair na depressão, os fiscais recusam a multar e engaiolar esses coitados e fatigados empresários. Vá se saber.

— É! E eu com meus trêmulos suspiros.

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