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Especial com Alcivando Lima – MORRER SUFOCADO

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Eu vou mudar para onde mora o vento, La o céu inventa passarinhos para chover ternura na cabeça dos homens. (Gabriel Nascente – Poeta, Jornalista).

— Não agüento mais ver televisão. Toda hora, mostram, ao vivo, a Noite de São Bartolomeu — falou Matilde para o marido que tinha a mania de coçar o umbigo se algo o obrigasse a pensar. — e acordo apavorada porque alguém gritou comigo: — Num vai tomar porra nenhuma de vacina, ta ouvindo?

— É — respondeu Dira, cabisbaixo, girando o indicador ao redor do umbigo

— Mas agora é real — Matilde completou — Mostram jovens e gente madura implorando por oxigênio, esbravejando que estão matando meu pai, minha mãe, meu marido, minha mulher, me acode, gente.

— Vixe, é o mesmo que rever o policial sufocando o negro de Minnesota. Até hoje ouço aquele som cavernoso, gemebundo, roncando e dizendo: Não consigo respirar. Ver gente morrer sufocada hoje em dia é coisa corriqueira, é assistir a lenta morte duma mosca esperneando numa tigela d’água — Dira falou e continuou com o indicador ao redor do umbigo, olhando de esguelha pra ver a reação de Matilde.

Sem demonstrar assombro, Matilde replicou — Derramam-se baldes de lágrimas vendo filmes em que criminosos caminham ou são arrastados ao cadafalso para ser executado na forca, câmara de gás, cadeira elétrica, injeção letal e, mais uma variedade: Deixar o condenado morrer por falta de oxigênio.

— Agora — Freneticamente Dira enfatizou, rodopiando e enfiando o dedo no umbigo — Manaus mostra cenas dantescas, onde se percebe, (mas não se ouve), o estertor de um moribundo agonizando e seus parentes clamando por oxigênio, bradando que estão matando sufocado meu pai, minha mãe, meu avô e muitos destes mamulengos, escudados pela onipotência da juventude, desobedeceram às mais elementares normas sanitárias, não usando máscaras, não lavando as mãos e não mantendo distanciamento se aglomeraram nas praias, nos bailes e nas mais insanas orgias, onde (não importa se a mula manca, querem é rosetar) beberam, se esfregaram, babaram um no outro e gritaram é só me intubar, pô, se infectando para voltar com roupas e corpos carregadinhos de inimigos invisíveis e contaminar, propositadamente, pai, mãe, avós que agora estão morrendo sufocados por falta de oxigênio num lugar onde, paradoxalmente, é o maior pulmão verde do planeta. Chorando, recordo um dos Cantos da Divina Comédia do poeta Dante Alighieri: “Por esse ar sem estrelas irrompia Soar de pranto, de Ais, de altos Gemidos:Também meu pranto, de os ouvir, corria”.

Matilde acordou assarapantada do pesadelo de ser arrastada pelos cabelos para uma saleta onde se tira todo o oxigênio e o peão ou peoa, condenados pela recusa de tomar outra coisa que não a vacina morre sufocado e Dira, igualmente, foi aos tapas com um guarda disputando um cilindro de oxigênio. Até ele acordar, o guarda estava vencendo por dois a zero.

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