Especial com Alcivando Lima – ATÉ QUANDO?

“Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri.” Clarice Lispector – Escritora brasileira nascida na Ucrânia – 1920/1977

De bubuia deslizávamos mansamente e aquelas águas esverdeadas lambiam meu pé numa ternura de velho amigo lambendo velha amiga, como disse Rubem Braga numa das suas memoráveis crônicas.

— Quê que é isso cara! — Exclamei, fixando um olhar desolado nas águas pachorrentas.

— Isso o quê? — Perguntou o outro, espantado.

— Esse aumento de preços todo santo dia! Dá vontade de chorar.

— Chora cara! Gente importante chora no banheiro, os mais ou menos nos shoppings e quem é mequetrefe chora na rampa ou sob ordem judiciária.

— Tô falando sério! Veja comigo: Se às dez horas compro um alimento por um valor já as dezesseis são dez por cento a mais. Isso é dose pra leão, cara!

— E tu tá querendo dizer que nosso honorável presidente é culpado, né?

— Não, longe d’eu pensar assim. O governo anda confuso, atarantado com a inflação e eu vivendo numa eterna deflação. Agora, ouça-me: O combustível fóssil é extraído por empresas e empresa não acaricia ninguém a não ser o avultado lucro e para ganhar mais, aumentam-se os preços, daí o custo de vida sobe pra caramba e o ganho do trabalhador vai pro ralo, a pandemia a matar indiscriminadamente e os bacanas do executivo, do legislativo e do judiciário comendo tudo que se produz nesse país, sobrando uma merreca para se aplicar na educação, saúde, estradas, saneamento, etc. — Ah! — ia me esquecendo — tem o constante aumento da energia elétrica que, além de torrar a vida de quem trabalha, é caríssima e corre-se o risco de faltar porque os reservatórios estão secando. Chove em tudo quanto é biboca, menos nas regiões das usinas hidrelétricas. Nenhum governo investe em energia solar ou eólica. Dá pra entender?

Perguntei voltando a enfiar um pé nas águas e um prazer quase concupiscente percorreu-me quando arreganhava os dedos do pé para as bonançosas águas entremearem-se neles, a brisa acariciando meu rosto enquanto esparramava olhares distraídos para as margens salpicadas de borboletas amarelas.

— Olha aqui —- Respondeu-me com voz alterada — Não sou bobo não, viu? Vi e senti sua ironia sibilando o ar numa crítica à probidade desse governo que vive a combater as bandalheiras que reinaram por séculos no nosso torrão natal e gente, como tu, esquerdopata, tem de lavar a boca com sabão de quadra antes de criticá-lo, tá ok?

Com essa resposta, olhei meu interlocutor de soslaio e deu-me vontade de convidá-lo a ler e deleitar-se com as inteligentes análises políticas de Marialda Régis Valente, desentediar-se com as aprazíveis resenhas literárias de Mariza Santana, serenar-se com a suavidade musical da pianista Maria Lucy Veiga Jardim Teixeira, estremecer-se com o martírio de “Piano” no conto A enxada, de Bernardo Élis, regalar-se com a perspicácia de Maria Lúcia Felix Bufaiçal nas suas magníficas crônicas, visualizar o aguilhão que Eliane Cantanhêde chucha nas costelas do governo e se estraçalhar lendo o Quinze de Rachel de Queiroz, mas, contentei-me a mirar meu impaciente auditor, de ponteiro na canoa, que iniciava um esboço de um sorriso maroto, um contentamento que, olhando de longe, parecia normal.

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Alcivando Lima - Opinião Leitor

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