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Especial com Alcivando Lima – UM, HÁ DE VIR

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“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”. Oscar Wilde – (Poeta e dramaturgo Irlandês).

— Cara, aqui no centro-oeste, as aragens das manhãs de inverno acariciam a face daqueles que se deleitam ouvindo a sinfonia dos passos-pretos, o dchri-dchri grinfado das andorinhas para logo, antes do esgarçar do sol, serem substituídos pelo ronco cavernoso dos carros movidos a combustível fóssil, poluente, num som gutural, cavernoso.

— Isso mesmo, — acordou um outro — e antes que alguém nos mande calar a boca, lembremos que muitos milhares, milhões de moradores, nas madrugadas de inverno, aparam o frio da desgraça tomando cachaça ruim e outras drogas até se esborracharem no chão, tontinhos, tontinhos.

— E desses — arremata um terceiro — a maioria é vítima do tal Mercado Internacional, entidade de fome canina, de pança volumosa, que escalpela, esfola o trabalhador brasileiro ao aumentar, sistematicamente, o preço dos combustíveis, do gás de cozinha e, na rabeira o arroz, o feijão, a carne, o óleo de cozinha e a financeira toma-lhe a casa, o carro e o põe no olho da rua.

— Ei, — ouvem um tsc, tsc, tsc vindo de um acocorado no fim da fila — calma aí, não é assim não, porra! Temos nossas leis, temos nosso governante que não brocheia nem com reza braba. Ele, no seu labor incansável e na sua infinita sabedoria, (não é abstruso), sabe que é melhor chegar atrasado nesta vida do que adiantado na outra, tá sabendo? — Falou e olhou pro céu feito galinha bebendo, meneou a cabeça e de súbito perguntou: Ele, por acaso é sojeiro? Petroleiro? Canavieiro? Rizicultor? Produtor de feijão, milho ou quiabeiro?

— Não, né não! — arrebata uma jovenzinha, deslumbrantemente bela, que tava assim de lado, — mas sei muito bem da sabedoria que ele e os demais governantes do mundo carregam: Definitivamente pensam que serão bobocas se interferirem ou contrariarem o mercado internacional. Suicídio abespinhar esse bicho brabo, indomável e exímio atirador de pedras de estilingue na testa de governos da direita, esquerda, centro, moderado. — Falava e seu decote feminino, (quanta boniteza, quanta lindeza contem o corpo duma mulher) arfava encantadoramente, olhando a todos com uns olhos que eram o mesmo que duas jabuticabas, encimados por espessas sobranceiras que lembravam taturanas negras acomodadas numa fronte trigueira — Esperança existe — continuou com desembaraço e sorriso levemente aberto — de surgir um, imbrochável ou não, que peite esse sistema, pisando-lhe o rabo, olhando-o com as pálpebras tremelicantes, ralhando firme: Peraí, mercado internacional, chega da procissão sem fim de levar o povo pra sua trituradora; sua conduta é abjeta, discricionária, irracional, nauseabunda; empanturra-se às custas da queda do padrão de vida de quem produz; ostentas luxuosos palácios com seus cagadores de ouro. Sua ganância não tem fim, famigerado Mercado Internacional, dono do mundo. As ruas vivem entupidas de gente vendendo bugiganga que vem dos quintodozinfernos; latrocínios são cometidos amiudadamente por conta da porcaria de um celular; bancos, corporações e grandes empresas espremem — descaradamente — sua clientela e associados à cata de doações disso e daquilo para eles, os ricos, distribuírem aos pobres. És um morcegão hematófago pairando sobre suas vítimas e ao descer suga-lhes o sangue com um canudinho nominado cotação de moeda e siglas e códigos que só o capeta entende. E se estiver num dia mal humorado, aí sim, o trabalhador tá fudido, vai pra salmoura, pro ralo. Vive-se sobressaltado nas garras da sua sanha coprológica por lucro. Não pode, isso tem que acabar.

Um governante, no seu orgulho imperecível, há de vir, sem indulgência.

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Alcivando Lima é escritor.