Especial com Alcivando Lima – SOU VELHO?

“A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude.” François La Rochefoucauld

Dia desses, ouvi imprecações de um amigo que chegou onde a vida faz a curva e entra num carrascal medonho, a boniteza, como manteiga, derrete-se no calor, a decrepitude arranca a seda da sua pele deixando no lugar umas manchas amarronzadas iguaiszinhas àquelas pintas dos antigos pinicos dos lares senhoriais. Dissera-me este amigo que, ao acompanhar a esposa numa rotineira consulta médica, saíra do saguão da clínica para tomar ares frescos. A pandemia e suas variantes — seguiu ele — renovaram fobias triplicando o medo de nos expormos aos espirros e tosses daqueles ao nosso derredor. Um macabro convite para ser intubado. Arre!

 — Ouçam os que já chegaram ou se aproximam da curva do rio — disse ele, numa voz cava — desde ontem, dia 18, para felicidade geral ou desespero da nação feminina, deliberei que chegara a hora de enganchar a magnificência, o alindamento que carreguei por dezenas de anos. Dá não, cara, chega, cansei!

— Que beleza, até que enfim consegues concretizar alguma coisa. Pendurastes o que mesmo? — Interroguei com deboche e um tantinho de comiseração. — Especifique, pombas!

— Minhas chuteiras de galã! — respondeu-me seco — Ser louçainha por todo o sempre dá não, siô! É brabo! Você, esquecendo que o tempo não para, insiste em peitá-lo e, de súbito, um maracujá esquecido na gaveta tá te olhando de rabo de olho. Credo! — Como eu continuava estampando um sorriso jocoso, meu amigo, arremedando Nelson Cavaquinho, exclamou: — Ouça-me, mas primeiro, tire esse sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor! — Ontem, — seguiu ele — depois de horas aspirando gás carbônico e saraivadas de sialorreias tossidas (que a máscara esbirrou), saí para o estacionamento quando, inopinadamente, tive que dar uns pulicos para safar-me duma camionetona manobrando nervosamente para dali se escafeder. Abruptamente o vidro abaixa e um imponente jovem aparece me perguntando, numa inflexão até amistosa: Tu tá guardando carros aqui, num é? e foi logo à cata de moedas. Por alguns segundos um ar assarapantado me abraçou, e eu, azuretado, nem dei conta de saber de onde veio o canto do galo; o educado mancebo, coitado, percebendo que o guardador era outro velho, procurou se desculpar, mas ao ver-me com os cantos da boca escumados (o besta aqui ficou um tempão sem tomar água) deve de ter se lembrado da fala dos médicos que alertam que gente idosa e desidratada é mil vezes mais suscetível a ataque nervoso que jovens bonitos e hidratados e eu, abrindo a babenta boca para agradecer-lhe que não precisava de me contemplar com gorjetas, mas a desgrama da fala saiu num rincho endoidecido que fez o desinfeliz do muchacho imaginar que o próximo passo seria eu abaixar, catar um caco de telha e tacar no pára-brisa ou dilacerar sua garganta com minhas garras e caninos longos. Seu espavorido olhar contava isso. Num brusco movimento, espicaçou seu fogoso corcel fritando os pneus no asfalto e sumiu no mundo, feliz por ter escapado das pedradas e das mordidas daquele velho doido. Com uma indizível sensação de que fora encostado no barranco da boniteza, tornei à clínica para voltar a respirar gás carbônico, gás metano e aparar, com a máscara, toneladas de perdigotos e remoer o acontecido — Rematou ele.

Esse dorido clamor trouxe à tona vários slides da Mr Quac Produções e que o grande Dílson Paiva, num gesto de comprazimento, enviou-me para que me deleitasse com a singular beleza sobre ser velho ou de se sentir velho. Enternecido, olhei para o “velhinho” postado à minha frente e repeti-lhe uma  frase com a mesma suavidade do teor do slide: “Os homens são como o vinho: a idade estraga os ruins, mas aprimora os bons” e notei seus olhos coruscando e a sensação de velhice evolar-se como uma azul fumaça esvai-se nos céus.

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Alcivando Lima - Opinião Leitor

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