Especial com Alcivando Lima – O CALANGO

“Os homens de poucas palavras são os melhores”.  William Shakespeare

Serão as águas do Meia Ponte que estão a aperrear o povo? Ou coisa do Lex Luthor (inimigo do Superman) que está a adicionar poções químicas para nos tornarmos um exército de zumbi dos mais brabos do mundo? Ou uma mefistofélica tramóia dalguma potência mundial interessada na nossa Amazônia e está a mandar coisas para encorpar e açucarar o leite, dourar o salmão ou agregar ao viagra e no caviar pra deixar a gente azougada? Primeiro envenenam os grandes, os parrudos que sorriem para mostrar os brancos caninos que vão afincar na jugular da rabacuada, do povaréu que veem oportunidades de melhoria na vida tão fugidias quanto as estrelas cadentes. Muita gente abespinhada e armada andando solta por aí. Ao passar por alguém e, por educação, cumprimentá-lo com um bom dia, ele ou ela chama a polícia ou parte pra porrada ou dá rajada de tiro alegando assédio sexual, assédio moral ou sei lá o quê. Nas minhas andanças venho reparando na cara triste de quem é fustigado pela necessidade de ganhar o pão ao ficar um tempão esperando o coletivo pra chegar ao trabalho ou ir a qualquer lugar. Mesmos as bonitas estão enfarruscadas e topam brigar no tapa, na faca ou no tiro. Absortas na tristeza estão a perder os lânguidos e cadenciados movimentos do corpo, pisam duro e olham estremunhados e não veem a estampa do sol retinir nas águas do Vaca Brava e nem apreciam uma noite enluarada. Algumas, enquanto caminham, balançam a peitaria e as bochechas tremem no compasso do andar dum bulldog. Para elas o sol está escondido e não se dão a ouvir um gorjeio dum Passo-Preto, dum Sabiá ou dum Curió em riba dum abacateiro ou duma Jabuticabeira. Rouxinol a maioria nem nunca que viu um e talvez nem saiba que ele existe ou existiu, vai se saber.

— É, até as mulé estão no ponto de briga, virgem mãe. Muitas, detendo a beleza das canções que sussurram nos nossos ouvidos, transmudam-se em lobisomem na hora da raiva. Cruz-credo!

— Certíssimo. Testemunhei, com esses meus olhos que a terra vai demorar a comer, uma refrega arretada de quando uma dessas lindonas conseguiu, a custa de sopapos, entrar num ônibus carregando com ela uns tiques ou gestos, (que minha mãe chamava de sesto), de piscar e balançar a cabeça feito calango, atraindo a atenção e atiçando a gastura dum bangalafumenga raquítico vestido a modo de um escalafobético zorro que, de súbito, perguntou se a lindinha aí podia ter a gentileza de confirmar se calango carrega, de fato, uma estrovenga do lado direito e outra na canhota. Se positivo, fizesse o favor de mover a cabeça como faz um calango, se não, piscasse quantas vezes pudesse ou quisesse. O zorrinho, coitado, teve a desdita de topar com uma ariranha recém parida bem no dia em que ela tava subindo pelas paredes num furor de comer caju ou manga de vez com sal, mas não podia devido estar na regra, no boi, sofrendo cólicas que provocavam ânsias de esmurrar quem lhe olhasse de banda ou citasse “calango” propositadamente, porquanto padecer de um treco que os doutos denominam síndrome de La Tourette. O zorrinho, coitado, afoito pela resposta da belezura, agora estática pela execrável pergunta, nem bem terminou de dizer: ”Cuma é?… num vai desembu…”, pois recebeu um uppercut (golpe de baixo pra cima) que lhe despedaçou em quatro as duas dentaduras (de riba e de baixo) e mais a saraivada de jabs, diretos, cruzados e ganchos que a dona onça despejou sobre o bunda-suja resultando no esmigalhamento do septo nasal (coisa que minha avó chamava de pau da venta) além do coitadinho ficar, por muitos e muitos anos, com um zzzziiiimmmmmzzzzzziiimmmmzzzzzzzz num ouvido e bzbzbztrlllqqqqtruummbzbzbrrrrzbzbrrrrzbzb noutro, em razão dos trompaços que a graciosa descarregou nas orelhas do mucufa e mais o som rascante de unhas deslizando num quadro negro a cada respirada pelo nariz.

— Ave-credo!

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Alcivando Lima - Opinião Leitor

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