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Brasil

Especial com Alcivando Lima – O APERREADO

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“Covid-19 é a materialidade de nossa insignificância, seu coração é cego como o Universo” Luiz Felipe Pondé

A indiferença, o medo e a má-criação ocuparam vários espaços e os pontapés que damos ou recebemos ficaram menos doídos, consequência do material com que são fabricados nossos tênis, sapatênis (bicho horroroso) ou chinelos de uma fedorenta massa emborrachada. Assim está o aperreado que viu e vê policiais escoiceando mulheres, viu e vê machões espancando, esfaqueando, baleando suas ex mulheres com tanta valentia que chega a se pensar que quando esses valentes cangaceiros vão cagar ficam tão brabos que suas mãos devem ser amarradas para impedi-los de esparramar bosta na cabeça, tal a gastura da purificação. Está aperreado porque inda pouco apeou duma sauna ambulante num terminal rodoviário (aprisco, curral de gado) do nosso transporte coletivo e sofreu no meio de homens e mulheres portadores de odores hircino (cheiro de bode) e bromidrose axilar (catinga de suvaco) e que te fitam com cara de filhote de coruja buraqueira e você não sabe se empostemou ou contraiu o novo corona vírus ou não quer saber e toma ojeriza de quem sabe; está aperreado porque quase foi nos tapas com quem lhe passou a perna ocupando o banco que acabara de vagar na sua frente. O banco tava estalando de quente e úmido, quase uma poça, do traseiro suarento que se levantara.

O aperreado lembra que autoridades médicas nos arrebatam com seu jeito de expressar implorando para não se aglomerarem e assim dar chance para o vírus zuretar no mundo. Ouve, consternado, as ponderações e volta sua atenção para a telinha e fica confuso com alguns repórteres falando dum jeito que lembra o antigo speaker (locutor de rádio) narrando uma partida de futebol que a gente só entende o final quando grita gol num espichado canto de galo rouco. A pergunta do ou da repórter é tão longa que o perguntado se perde no meio da barafunda da pergunta e, às vezes, responde do mesmo jeito, isto é, barafundando também.

O aperreado, antes langoroso de olhar conspícuo, tornou-se ranheta de tanto ver gentes de muleta nas portas das agências da Previdência que se esqueceu de inspecionar os locais de trabalho e os profissionais, que não são bobos, não vão arriscar a vida para atender uns xexelentos que estão atrás duma graninha pra comprar comida e celular pau pra toda obra; o aperreado, nos seus pesadelos se sente abduzido por alienígenas transfigurados em tarântulas que lhe picam e lhe viram do avesso e ele se transforma numa descomunal ameba e acorda agarrado na goela da mulher gritando: Sua vaca, vá atender quem precisa de perícia médica, vá!!

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Alcivando Lima é escritor. Os artigos são de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do veículo.