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Brasil

Especial com Alcivando Lima – MEDO DE TROVÃO

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Imagem/Freepik

“Trovão ribomba, galinhas levantam a crista de uma única vez”. Naoto Matsushita

— É… de perto você não parece nada daquilo.

— Daquilo o quê?

— Que hora és da direita, mas do outro lado da casaca, é esquerda roxo.

— Quem foi o filho da p… que falou isso? Hein?…Diga aí! — Respondeu e me olhou como se eu tivesse xingado a mãe dele.

— É o que falam. Já contaram até para a meninada do fundamental. Nas estâncias médias e superiores é pau que rola. Um grupo te acha inteligentíssimo, só perdendo pro mito e te quer para palestras, debates e coisa e tal, outro diz que é um pelego, oligofrênico, um pau-mandado e estão doidinhos pra te catar e te moer no cacete.

— Ué! Só porque questionei a serventia de quinhentos e tantos deputados e oitenta e tantos senadores? Ora, todo mundo sabe que estão lá comendo tudo o que o povo produz e mais alguma coisa. Chega. Falei pra colocar quatro representantes por Estado da Federação e nenhum senador, senador pra quê? Ou fecha-se de vez aquela porra!

— Sei! Tem gente que tá louquinha da silva pra fechar o Congresso Nacional, tribunais e abrir umas boquinhas pra eles. É isso que quis dizer?

— Não, não! Não falei assim, não! Tem neguim querendo butá o meu lá em riba pra urubu bicar, eu sei! Falei assim ó: Elege-se um representante em cada ponto cardeal de cada estado brasileiro, com um salário de professor e uma secretária ou secretário pra auxiliar. Nadica de mordomias. Ajuda-moradia? Ajuda pra chapéu, gravata, paletó, caviar, salmão defumado, etc.? Necas! Quer ostentar chiqueza andando em carros de luxo? Pague com seu salário, que eu duvido que chegue para isso, ou então fecha aquela porra e pronto, fica só o chefão e umas poucas ministras e ministros, umas poucas carinhas rosadinhas, bem nutridas, enxundiadas, um tiquinho de nada, um pssst-psssts bem escolhidos num mundão de gente, tá me entendendo? E tem mais — continuou, onomatopéico, escatológico — chega de corococó, um cabra desassombrado como eu que tem coragem de entrar em cemitério à meia noite e se sentar nas catacumbas vai arrupiar de medo de gente viva ou borrar-se ao se sapecar em fogo fátuo?

Emproado saiu caminhando sobranceiro, socando o chão com passos soberbos de quem desfila num sete de setembro, coçando os baixos meridianos, olhando com desprezo ora pra esquerda, ora pra direita e, imprevistamente um calango sem motivo algum aparece na sua frente e ele, rápido como um raio, entortou a boca e assoprou um cuspo grosso que plaft, acerta a cabeça do calango e este, zoró de tudo, saiu num carreirão desembestado, entrando rapidinho numa lata de leite condensado, jogada à toa por ali. De longe, arrisquei a lhe perguntar: — Zé Rôla, e de trovão tu tem medo?

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