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Brasil

Especial com Alcivando Lima – ESPRAGUEJANDO

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“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Carlos Drummond de Andrade.

Ele estava chateado e falou: — Hoje amanheci com vontade de tacar o pé na bunda dessa desgrama de vírus que vem petecando a vida da gente; nenhuma nesguinha de esperança ele nos deixa vislumbrar e nem, num abraço, afagar as amigas, os amigos que a gente ama; foi pro beleléu sentarmos às mesas esparramadas na calçada de um bar, sorvermos uma tulipa de cerveja, uma taça de vinho evocando Álvares de Azevedo ao acender e dispersar a fumaça lânguida e cheirosa de um charuto que preludia, oh! Que regalia! Talvez fôssemos felizes sem motivo. Na sabedoria de Carlos Drummond de Andrade, é a maior forma de felicidade.

A voz forte desse desabafo varou o ar, reverberou nos morros, e no mesmo diapasão, voltou e se aninhou aos nossos pés, como um bicho de estimação.

— Hoje contemplei a aurora de uma tênue luz azulada que me lembrou o timbre aveludado dalgumas amigas e amigos contrapondo ao esganiçamento irritante dalgumas apresentadoras e apresentadores dos nossos telejornais que as empresas catam no laço nesse pandemônio. Além da voz estrídula, utilizam duzentas palavras ao invés de duas inteligentes, deixando o interlocutor embaralhado. E, quando estamos diante da máquina de fazer doido, (TV), temos que aguentar o desplante dalguns gênios da mídia que nos comerciais nos mostram, num segundo, duzentas imagens de duzentas coisas que levariam minutos para se expor. Nossos olhos caem num processo falimentar por tanto desrespeito ao bem estar ao expectador.

E a sufocante solicitude dos bancos? Quanta bondade estampada nas coloridas telinhas. Você que está na maior pindaíba, o auxilio do governo nunca chega e se chegar vai ficar borrando de medo de descobrirem que tu aparece nas colunas sociais mesmo devendo pros botecos, para o açougue, a farmácia e no mercadinho onde tem um monte de contas no prego e quando tem dinheiro vai pros shoppings. Vá lá e peite o gerente de um desses bancos. Ganha uma viagem de ida (a volta é por sua conta) pra Wuhan, China, se se conseguir levantar-se da mesa do gerente sem sentir um gosto de cabo de guarda-chuva na boca e a desconfortável sensação de que foi engabelado (educadamente, claro!) com os de cortes de crédito ditos pelo gerente que nem um copo d’água lhe oferecera. E se o gerente ceder aos encantos do pedinte, a adiposa diretoria do banco vai concluir que ele, o gerente, é fraco, porqueira, é mané, não tem pulso, não passa de um sicofanta que merece ser enrabado e pum, explode o coitadinho.

Finalmente vamos para os acontecidos mais recentes na vida pública e privada brasileira. Compungidos e circunspectos os apresentadores de telejornais divulgam que a democracia está perigando e mostra imagens de gente espraguejando apopleticamente dizendo que o perigo está nesses petralhas velhacos, biltres que sonham com o comunismo imperando no Brasil e tome foguetes na cacunda do Supremo Tribunal e alguns, de ânimos mais exaltados, sugerem pegar umas trezentas éguas no cio e nelas amarrar uns trezentos esquerdistas dos infernos que esse vírus de merda não deu conta de dar sumiço.

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