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Brasil

Especial com Alcivando Lima – BANDIDOS, ESTREMECEI-VOS, AQUI VOU EU

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Imagem/Freepik

“A incitação à luta é um dos meios de sedução mais eficazes do mal”. Franz Kafka

 

— Sei não, acho que vou processar o Rambo!

— Ué, por quê?  O quê que o coitadinho fêz?

— Rambo, uma resiliente praga que influenciou, miseravelmente, os desinfelizes dos ricaços. Depois da aparição dele nos cinemas, quase todo miliardário bunda-mole (depois dos sessenta, setenta, é mole mesmo, cai tudo), pra sair do horroroso tédio que o dinheiro provoca, se arma de espingardas, granadas, facões, canivetes, se enfarda, pinta a cara pra guerra e dana a dar ordens pra agarrar bandidos.

— Como e onde isso aconteceu?

— Recentemente o mundo inteiro tomou conhecimento dum desses Rambos de cara enrugada, enfezado, com trabucos a tiracolo, doido pra meter bala na cacunda dum bandido que está aterrorizando a população de Cocalzinho e adjacências.

— Tá brincando, verdade?

— Acorda, cara! Passeando em marte? O mote hoje é o famoso amoitado do centro-oeste. Quem, no pega-pega, agarrar e encher de chumbo a pança desse malfeitor que está amoitado há tantos dias, terá garantido uma vaga no congresso nacional. Com cerca de meio milhar de homens treinados na selva, montanhas e mares, dezenas de cachorros com faro intergaláctico, tantas aeronaves que captam o menor zumbido e disparam cem tiros por segundo, trocentos teleguiados com câmeras térmicas capazes de identificar até a iris multicor do dito cujo; internet alimentada por satélites russos, norte-americanos, coreanos e o diabo chupando manga e necas de localizar o filho da p* e enchê-lo de porrada, de tiro, arrancar-lhe os dentes no alicate, pendurá-lo no pau-de-arara e enfiar um picolé de pimenta no toba dele, arrancar os fios de barba na torquês, tafuiar agulhas de costurar saco debaixo da unha de cada dedo de cada mão, de cada pé, furar cada olho com espeto de churrasco, derramar chumbo derretido nos seus ouvidos e empalá-lo no feitio do Conde Vlad III Dracul, — Aiii que raiva desse lazarento, desse camunhengue, filho duma ronquifuça, —  afirmou e confirmou o último desses Rambos do centro-oeste brasileiro. Muitos afirmam que querem ver a mãe morta se for mentira que o Rambo não é Rambo, é Ramba, mas, por causa da pintura de guerra e da voz indefinida (grossa e fina, fina e grossa) não distingue a qual gênero pertence o paladino ou paladina, eis a questão.

— Sei não, povo poderoso pode mandar te capar a qualquer hora e a única mudança que se terá é sua voz ficar fininha. Mexe com processo não e terás saúde para conservar os dentes no lugar e talvez possas escapar de uma apoplexia que está a caminho se continuar brabo desse jeito, certo? Pessoas que combatem o mal têm aspiração elevada e delas, quem sabe, pode vir a nossa glória, nossa redenção.

— Sei, sei bem a a$piração elevada que esse povo carrega. O bom disso tudo, — retruca o pretenso processante — é que o Rambo ou a Ramba, é bombardeado(a) por informações (corroboradas por dezenas de repórteres televisivos que contam e recontam numa ladainha de perguntas e eles mesmos responderem, numa lenga-lenga sem fim), que dizem: “Olha, seu Rambo ou dona Ramba, achei uma calcinha com sinal de brecada de bicicreta na fundo, mas só uma perícia nos laboratórios da NASA pra confirmar se é do serial killer, diz uma lá do Monte Caburaí e outro rebate de Buenos Aires alegando que o mocorongo está boquiaberto com o Obelisco aqui da avenida Corrientes; outro alardeia que o cabra é muito inteligente, está provando, aqui em Ponta do Seixas, Paraíba, se água do mar é mesmo salgada, no que é, veementemente, contestado por quem está lá na Serra da Contamana: Corre aqui, achei o bicho, é eloqüente mas, pela cara de fídumaégua, tá com intenção de fugir para o Peru”. É muito fake news, é muita aporrinhação, deus me livre.

— Certo que é. Mas, e o Rambo ou a Ramba, o que é feito deles?

— Sabe-se lá! Sumiu, escafedeu-se, esgueirou-se tão logo pronunciou sua profética e fatal frase tumbir: “Bandidos… ó bandidos, estremecei-vos, aqui vou eu”.

 

 

 

Alcivando Lima é escritor.

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