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Especial com Alcivando Lima – PRA VOCÊ QUE, PENOSAMENTE, VIVEU APENAS ALGUMAS HORAS, ADEUS

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Especial com Alcivando Lima - PRA VOCÊ QUE, PENOSAMENTE, VIVEU APENAS ALGUMAS HORAS, ADEUS

“Quantas vezes a simples visão de meios para fazer o mal / Faz com que o mal seja feito!” William Shakespeare

Não, ver filmes de terror deixa a gente regelada ou nos faz fazer xixi nas calças. Há consolo em saber que é ficção se vier da mente deslumbrada de um Stephen King ou de Alfred Hitchcock, criador daquele assassino que, sem dó, enfia a faca na Janeth Leigh, no filme Psicose. E a fúria dos pássaros no ataque onde tudo se inverte? Eles, os pássaros, na sua saga assassina atacando crianças quando saíam da escola e o homem, preso na gaiola. Ave-Maria, que horror.

Isso já vai pra mais de cinquenta anos e o que vemos hoje, ao vivo, na tevê, põe no chinelo esses filmes ou é filme que se pode passar em Jardins de Infância (ainda se diz Jardim de Infância?).

O Exorcista, em que a menina, com a cara toda lanhada, gira, em 360º a cabeça, gumita uma gosma amarelada, afinca com extrema violência um crucifixo na vagina e a cama sai trotando feito um cavalo doido disparado não horripila tanto ao vermos, via tevê, uma mãe, caminhando sobranceira, levando numa caixa de papelão, o corpo esmarrido do seu filhinho defunto ou ainda arfando tão debilmente que mal se apercebe, pelo inanimado, que pode ser um moribundo e não um cadáver, prum lote vazio e volta pro carro (carro chique) e pega álcool pra tacar fogo no corpinho que logo vira anjinho e este, todo sapecado, alegremente vai, batendo suas asinhas, furando chumaços de nuvens até chegar ao céu onde Nossa Senhora o acolhe e o limpa numa água morninha, amamenta-o e lhe canta uma cantiga de ninar tão dulcificante, que o querubim cai num soninho tão mimoso que nem lembra que fora torturado com drogas e blasfêmias ainda no útero materno onde a mãe, por odiá-lo, assim lhe falava: Aqui você não terá emoções líricas e te proibirão de ouvir o trino dos passarinhos. Aqui, Mané, o mundo tá te esperando pra te moer no cacete, viu? Aqui você vai chorar e se chorar tu apanha, tá ouvindo? Aqui o ar para o pobre é rarefeito, é porrada, é pé no saco, mão na cara, fome, bullings, desencanto com os incultos beiçudos que pastoreiam a nação; aqui você, agarrado numa peneira e sorriso apalermado, vai passar a vida tentando tapar o sol do desprezo acompanhado, sempre, dum sorriso sinistro, de bobo alegre; por todos os demônios, não amadureça, não nasça, não cresça, pois poderás, quem sabe, ser aquele cientista pai da cura de qualquer tipo de câncer, ou que fosse, quem sabe, um líder que não contemplasse o ter em detrimento do ser; um líder que fosse espelho para o mundo na consonância do homem com a natureza e que elegesse a ciência, a cultura, o saber como bem maior e não mimasse armas mortíferas; quem sabe esse inexpressivo defuntinho chamuscado, tostado, crestado fosse a cabeça prodigiosa, de prosa eloquente e não mais um boquirroto, mais um escroque disfarçado de gente boa, mais um futriqueiro, um demagogo que o povo, enganosamente, elegera para governar, reger, comandar, liderar e apascentar, educadamente, o povo, disseminando a paz sem o jugo de tacões opressores. Mas não, sua doente mãe, com medo de que fizessem contigo o mesmo que fizeram com Jesus Cristo, não quis que crescesse para não ser esquartejado, crucificado, triturado, moído, pulverizado, mas ele, embirado, obstinado, insistiu e veio ao mundo e catalisou em torno de si uma profusa malevolência da mãe odienta que lhe disse então que fosse pras profundezas, para o érebro, pro abismo, para o tártaro, pras trevas, pros quintos dos infernos e tacou-lhe fogo.

Alcivando Lima é escritor.

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