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“SE”

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Alcivando Lima
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Alcivando Lima: 15/09/2017 – 10:16

 

“Noventa por cento dos políticos dão aos 10% restantes uma péssima reputação”.

Henry Kissinger

Tenho um amigo que me chamou a atenção por ser demasiadamente provinciano. Segundo ele, sou um troglodita que fica encafifado na nossa grande Goiânia. Daí o atraso. Juntei uns trocados e resolvi arejar a mente e tomar um banho de loja, isto é, de camelô porque não sou doido de ir aos shoppings comprar uma calça jeans, que já vem toda rasgada, pela bagatela de 2.500 reais. Como essa bufunfa toda compro tanta calça que usarei até ao final do século. Vá lá que fico cheirando a saco de aniagem, mas vez em quando disfarço o bodum surrupiando doutro amigo um tiquinho de nada do hipnotizante e caríssimo Notorious Ralph Lauren que custa a merreca de 3.500 dólares um frasquinho desse tamaniquinho aqui, ó.

Até os calangos, — continua meu dileto amigo — evoluíram e tu ficas nessa  ingrizia de implicar com os políticos e com os nossos ônibus. Para constatar a veracidade do que digo, — disse ele — basta ir à região da Serra da Mesa que verás, com os seus olhos que a terra há de comer, as lagartixas com bocas e cabeças maiores do que tinham há apenas quinze anos e tu, com quase cem, se espanta com celulares que conseguem pilotar jatos e helicópteros e te reconhece pela cara e tu ficas aí exibindo todo garboso a fotografia amarelada dum tijolão fabricado em 1983 que o cara ou a cara tinha que ser halterofilista para manejar o bicho, tal o peso e tamanho do dito cujo.

Disposto a não mais matar meu amigo de vergonha por ser um Dinossauro, entrei na fatiota nova, me perfumei e comprei, em trinta e seis suaves prestações, passagens aéreas de ida e volta e me escafedi pra Brasília pra ver se largava de ser jacu e rever (fui candango no comecinho de Brasília) o Palácio da Alvorada, do Jaburu, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o prédio do STF, o memorial JK, o Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves e muito mais. Só que, do aeroporto a demais lugares tive que tomar não sei quantos ônibus e voltei a ter o mesmo engulho, e sentir a mesma agonia da praga nacional que é o transporte coletivo. Testemunhei, com essas velhas retinas que a terra vai comer daqui a cem anos, os deputados, senadores e diretores disto e daquilo andando prá lá e pra cá nuns carrões pretos do tamanho de um transatlântico enquanto eu e os demais em buzus em que cabem 50 e carregam 200.

Estando dentro das gaiolas não tem como deixar de ouvir os sábios comentários do povo preocupado com o que pode acontecer com esse Brasil “SE” a prisão do manda-chuva da JBS, “SE” a prisão do soteropolitano das malas dos milhões de reais, “Se” a deduragem do furacão Palocci entregando a rapadura riscando fósforo na palha seca, “SE” o aumento diário do preço da gasolina e mais uma chusma de coisas e “SE” isto tudo pode ou não pode complicar a vida dos nossos dirigentes.

Firme no propósito de dar menos ratas nesse restante de vida, fui sapear ali pela Praça dos Três Poderes (que ajudei a construir vendendo picolés para a peãozada nordestina) puxando conversa com um e outro pra ver se me evoluía pelos menos um tiquinho enquanto passava por nós deputados e senadores constantes do rol da maracutaia. Visitei o imponente Conjunto Nacional pra ver coisas atuais e futuras e numa livraria folheei uma revista donde Deonísio da Silva, doutor em letras pela USP, discorreu sobre a etimologia da palavra “lacônico” que me remeteu a comparar com a atual bagunça nacional dado que nossos santimoniais dirigentes tentam “SE” explicar que não são desonestos e fariam muito pelo povo “SE” o MPF, a PGR, a PF e o STF os deixasse trabalhar em paz. O professor Deonísio explicou que lacônico é habitante ou relativo à região de Lacônia, Grécia antiga. Os lacônios expressavam-se em poucas palavras e ilustrou com um acontecimento em que Felipe da Macedônia (382-336 a.C) consagra esse estilo. Disse Felipe aos lacônios que se não se rendessem invadiria suas terras pilhando e queimando tudo. Se eu marchar sobre a Lacônia, arrasarei sua cidade.

Alguns dias depois teria recebido a resposta: “SE”

 

Alcivando Lima é Escritor. E-mail:  [email protected]

 

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