Quem disse que Educação Física é uma “Educação do corpo”?- do retrocesso eugênico à luta pela emancipação

21/08/2017 – 08:50:39

A Educação Física, é marcada por uma série de acontecimentos históricos que a contribuíram para constituí-la, por vezes negativamente, diga-se de passagem, porém alguns argumentos e comentários da “boca miúda” devem ser esclarecidos. Quem já ouviu expressões como: “Educação Física na escola serve para emagrecer os alunos gordinhos!”; “Educação Física na escola é bom para lapidar os futuros atletas, ou aqueles que têm aptidão para isso”; “Na minha época meu filho fazia muita ginástica na escola, aquilo sim era Educação Física”.

De fato, os exemplos supracitados são apenas uma parcela da tempestade de falácias que a Educação Física está sujeita. O senso comum promove um discurso de Educação Física em todas as esferas, até mesmo no meio escolar, como uma forma de educação do corpo. Mas que fique claro, essas concepções inverídicas é influenciadas historicamente por outros interesses, e por uma origem que após muita labuta foi superada (ou não!).

Segundo Soares (1998) a Ginástica científica no século XIX era componente legitimado da organização societária. Essa por sua vez constituía uma “Educação do Corpo”, que já tinha sua valia na época, porém nessa nova configuração era vista de forma ainda mais precisa quanto à norma e preceitos ao corpo. Em sua obra “As imagens e Educação no Corpo” Carmem Lúcia Soares faz referência a Vigarello (1978) que destaca o corpo como o primeiro meio para imposição de limitações e padrões sociais, porém também é o espaço para as primeiras aproximações aos códigos e signos civilizatórios.

Nesse sentido, a Ginástica foi incorporada ao sistema burguês, como instrumento de moldar e adestrar o corpo a um padrão posto que prometa vir a otimizar a ordem e disciplina coletiva. Os princípios da Ginástica nessa conjuntura eram a retidão corporal e a rigidez que mantenham os corpos aprumados. Sobretudo, vale ressaltar que aqueles corpos que fugiam a esse porte não interessavam ao bem coletivo.

Todavia, apresentar a Ginástica como vértice para potencializar a ordem e disciplina coletiva não bastava para aceitação geral da população. A Ginástica então foi enfatizada por meio do divertimento, este período ficou conhecido como “Movimento Ginástico Europeu” que se constrói por manifestações culturais como o circo, exercícios militares e festas populares. Porém, não se perdia de vista os interesses verdadeiros da elite dominante, ou seja “O culto a beleza, a saúde e a pátria” (SOARES, 1998).

A concepção de corpo para grande parte dos Brasileiros, hoje em dia ainda se deve a estereótipos impregnados desde o Movimento Ginástico Europeu, podemos notar quando questionamos qual o papel da Educação Física na escola como feito anteriormente nesse texto, mas cuidado para não se impressionar com a resposta. Mas isso não acontece por acaso, segundo Silva et al. (2004) a Educação Física tem sua consolidação no Brasil enraizada na consolidação do capitalismo Europeu.

A Educação Física estava imersa em princípios ideológicos capitalistas e positivistas, consequentemente ocorreu uma biologização do homem, ou seja, aconteceu uma supervalorização ao orgânico e um desvencilhamento ao social. Portanto, as desigualdades sociais começaram a ser justificadas como sendo resultados de desigualdades biológicas ou naturais.

Dessa forma a ideologia rebuscada pela burguesia ganharia forma com os pensamentos positivistas, reforçando as desigualdades sociais. Embasado em Silva et al. (2004) trago o exemplo da expansão industrial, que trouxe junto consigo uma enorme degradações a população. Porém segundo o higienismo positivista isso não era fruto de problemas sociais (Altas cargas trabalho, pressão por meritocracia, trabalho desumano, locais inapropriados, sistema político, entre outros) e sim das desigualdades naturais dos indivíduos.

Uma categoria que se destaca assim como o higienismo é a Eugenia, que da mesma forma atende aos interesses do Capital. De fato, a competição é característica marcante no sistema capitalista, sendo vista como algo natural, como produto civilizatório. E a “Educação do Corpo” que infelizmente dominava a Educação Física nesse momento histórico teve papel de destaque nesse processo. A competição está correlacionada a depuração da raça, aprimoramento da aptidão do indivíduo, ou seja, a partir de uma seleção natural “os mais aptos” iriam sempre ter uma melhor condição social. Entre outras palavras, a legitimação da separação de classes estava justificada por uma dimensão “científica”, que na verdade era extremamente ideológica.

A Educação Física no Brasil surgiu como uma área conservadora, tendendo aos interesses da burguesia baseada nos princípios positivistas. Nesse momento arcaico da Educação Física, o corpo era visto de forma naturalizado, a-histórico e conservador (CASTELLANI, 1998).

A ginástica agora como tema da Educação Física, em um contexto escolar visava à preparação dos corpos para a defesa da pátria e trabalho indústria, o esporte também como tema tinha a responsabilidade de entretenimento social e fortalecimento da nação como potencia esportiva. Não é por acaso que em muitos espaços seja oferecida Ginástica para as meninas e Esportes para os meninos como uma pseudo Educação Física.

De fato hoje, a Educação Física se difere e muito da inveterada “Educação do Corpo”, os Professores de Educação Física (E não “Educadores Físicos”! Por favor, obrigado.) tem por responsabilidade garantir o acesso aos conhecimentos respectivos a Cultura Corporal, nas dimensões técnica, táticas e internas, mas também nos eixos filosóficos, históricos e sociais. Portanto os conhecimentos pertinentes aos saberes acumulados humanidade são de responsabilidade também do Professor de Educação Física, e não podem ser furtados do trabalho educativo e intencional da instituição escolar (COLETIVO DE AUTORES, 1992).  A formação de sujeitos autônomos não se dá por acaso, a luta foi grande e quem sabe se será maior ainda daqui para frente, e a Educação Física continuará a batalhar e a sonhar pela emancipação das pessoas e não pela padronização.

 

 

Leonardo Andrade – Professor, pesquisador e palestrante.

[email protected] / @leoandrade118

 

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