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Opinião Pública: Mercados dificilmente darão a Barbosa o benefício da dúvida

O Brasil tem um novo ministro da Fazenda. Levy foi embora. Tinha boas receitas. Mas era um estranho no ninho. Durante seus breves 12 meses no ministério, foi vítima serial do fogo “amigo” disparado por Lula e seus companheiros, provavelmente saudosistas da desastrosa gestão de Guido Mantega. A própria presidente Dilma, responsável pela ida de Levy para o governo, porém fiel às suas enraizadas convicções ideológicas, foi-lhe gradualmente retirando o apoio minimamente necessário à implementação do ajuste fiscal.

O novo ministro da Fazenda, o economista Nelson Barbosa, destacou-se como tenaz adversário das políticas de Levy, advogando sempre uma dose menor de ajuste fiscal e uma dose maior de estímulos à economia. Seria injusto dizer que sua ida para a Fazenda representa a volta pura e simples da irresponsabilidade fiscal típica de um Arno Augustin ou de um Guido Mantega. Contudo, não há como negar que o país inicia um novo ano com uma equipe econômica com um viés menos austero e mais intervencionista do que o do ministro anterior.

A fraqueza política da presidente Dilma e a ameaça de seu impeachment impelem-na ainda mais a seguir seus instintos ideológicos explicitados em seu primeiro mandato na fracassada “nova matriz macroeconômica”, responsável última pela crise atual da economia brasileira. Como partícipe da implantação e execução da “nova matriz”, Barbosa representa a opção da presidente por um outro rumo na política econômica, mais próximo ao praticado entre 2011 e 2014 e defendido por ela durante a última campanha eleitoral.

A economia brasileira está em frangalhos, vitimada simultaneamente pela depressão econômica e pela inflação persistente. As expectativas nunca estiveram tão negativas. Uma típica situação que requer coragem e liderança para a prática de políticas de ajuste fiscal e monetário. E na qual é bem mais fácil seguir o caminho populista de um keynesianismo espúrio que inverte a ordem dos fatores e postula que a solução está no estímulo à demanda, que restauraria a confiança dos agentes econômicos, o crescimento das receitas fiscais e, consequentemente, o ajuste das contas públicas. Nessa feitiçaria, o combate direto à inflação pelo Banco Central pouco importa, pois a demanda cria sua própria oferta solucionando, assim, de modo “automático” tal problema.

Ocorre que, ao contrário do que parece crer Dilma em relação à política econômica, o futuro não está no passado, notadamente quando se sabe que a experiência de seu primeiro mandato foi simplesmente desastrosa. Em suas primeiras manifestações como ministro da Fazenda, Barbosa afirmou seu compromisso com o ajuste das contas públicas. Tomara que assim seja. Porém, se assim for, o novo ministro deve enfrentar a mesma oposição que vitimou seu antecessor, pois dele os petistas esperam um comportamento menos “ortodoxo” e mais sintonizado com os movimentos sociais, seja lá o que isso signifique.

Em tal contexto, há pouco espaço para otimismo. Os mercados dificilmente darão ao novo ministro o mesmo benefício da dúvida que ajudou Levy durante os primeiros meses de 2015. O grau de investimento já foi perdido. As projeções para 2016 são simplesmente horrorosas, tanto em termos de inflação quanto do crescimento. O processo de “impeachment” tende a ser longo e acidentado e, mesmo que Dilma sobreviva a ele, a barganha política resultante dificultará ainda mais a colaboração do Congresso na aprovação das medidas de ajuste fiscal.

A depreciação cambial mais forte em razão da deterioração adicional das expectativas adicionará mais pressão aos preços, inviabilizando a convergência da inflação para a meta em 2016. Na falta do ajuste fiscal, a política monetária ficará fortemente limitada, com o risco de o país adentrar no perigoso terreno da dominância fiscal.

Porém, não bastasse tudo isso, há um risco ainda maior. A piora das condições da economia pode levar o governo a querer tirar da cartola medidas “milagrosas”, como as que já estão sendo recomendadas por aí, a exemplo do esdrúxulo uso das reservas internacionais como elixir universal para os males da inflação, do elevado endividamento público e da falta de crédito para investimento. Em 2016, boa sorte, Brasil!

Gustavo Loyola
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