Portal Opinião Goiás: José Genoíno – quem diria? – um personagem quase herói de Carmo Bernardes em “Xambioá: paz e guerra”

Opinião Pública: José Genoíno – quem diria? – um personagem quase  herói de Carmo Bernardes em “Xambioá: paz e guerra”

Lá pelos anos setenta, vinha amiudado de Belo Horizonte para a Macambira decretado para visitar Carmo Bernardes, que de longa data estava encegueirado para estreitar nossa amizade apenas epistolar.

No nosso primeiro encontro, ele ainda mineiramente desconfiado, feito galinha vendo cobra, no que destampei minha prosinha sertaneja que a cidade grande não desfigurou, ele me reconheceu, e dali em vante saramos uma amizade que me levava a frequentar sua casinha singela no Setor Pedro Ludovico, convivendo até com um macaquinho prego que ele criava num compartimento de tela ali no terreiro, tomando o cafezinho com tolda que dona Maria coava num coador de flanela.

Numa dessas vindas, ele me mandou ao “Diário da Manhã”, que ainda funcionava na 24 de Outubro, e apresentei-me a Washington Novaes, editor-chefe deste jornal. Após esse encontro, passei a escrever uma crônica semanal, mandada pelo correio, entremeando o espaço com Oscar Dias, João Bênnio e ele-Carmo Bernardes.

Numa dessas vindas, comentávamos que a elite literária caíra de pau em cima de mim por mode um comentário que eu fizera do seu recém-publicado “Jurubatuba”, editado pela Cultura, quando disse que Goiás nada devia a Minas em termos de regionalismo, pois “Carmo Bernardes estava muitos furos acima de Guimarães Rosa”. Pra quê!? Para a mineirada meu parecer estava sabendo a uma heresia, face ao verdadeiro culto que dedicavam ao homem de Cordisburgo.

E Carmo me passou um calhamaço datilografado com o título de “Xambioá: paz e guerra”, que retratava a “Guerrilha do Araguaia”, movimento de luta armada ocorrido na divisa do Tocantins com o Pará entre os anos de 1972 a 1975, que buscou combater a ditadura militar implantada na época.

Pediu-me para ler, dar uma revisada e emitir minha opinião, agora que ele chegara à conclusão de que éramos literariamente farinha do mesmo saco.

Li os originais num tapa, para depois reler devagarzinho, saboreando seu regionalismo autêntico, sacado da boca do povo, devolvendo-lhe os originais com as anotações, e lembro-me até de ter feito uma correção, quando ele colocou um personagem no seu romance-verdade chamado “Zezuíno” e obtemperei que, pelo que a imprensa noticiou, o nome era, na verdade, “Genoíno”, no que ele concordou. Aí, ele me pediu para fazer a apresentação. Ponderei que não me sentia à altura, mas a benevolência do amigo me credenciava a fazê-lo, com muito prazer,  mesmo porque – sem falsa modéstia – talvez seja eu quem mais o leu e, em contrapartida, mais o admirava.

Muitos sabem que Carmo foi um dos mais perseguidos pela repressão, e muitas vezes gozava de um voluntário e gostoso exílio nas bandas do Araguaia, principalmente em Caseara, no Tocantins, fugindo dos coturnos e fuzis. Talvez devido a isso, ele pediu à família para publicar “Xambioá” depois da sua morte, uma vez que retratava, personificado no personagem “Dr. Marquinho”, a região crucificada pelas barbáries da repressão, que a censura não deixou vir a público na sua inteireza.

O velho Carmo, profundo conhecedor da região (e hoje apelidado com propriedade por Bento Fleury de “doutor em cerrado”), narra com precisão cirúrgica o ocorrido, sem deixar de mencionar os nomes reais dos protagonistas, vários dos quais ainda vivos, como coronel Sebastião Curió (que matou covardemente muita gente, mandou e desmandou no garimpo de “Serra Pelada”); o guerrilheiro José Genoíno (barbaramente torturado em Xambioá pelas forças repressivas, fato narrado com minúcias do livro); o conhecidíssimo ex-deputado Ricardo Fiúza (que já ensaiava suas malandragens antes de se envolver no “escândalo dos anões do orçamento”); o então capitão Robson de Sá Bizarria (que comandou o fuzilamento de guerrilheiros no acampamento do Caiano, onde, infiltrado sob disfarce, vivera vários meses, fuzilando até a guerrilheira Ana Rosa, com quem vivera maritalmente e, inclusive, grávida de sete meses, esperava um filho seu, tudo “por amor à pátria”).

Esse emaranhado de episódios, com diversos personagens vivos e a descrição dos fatos em cores fortes, é que fez o velho e prudente Carmo deixar para levar a público o realista livro após sua morte. E “Xambioá” foi publicado em 2005, nove anos após a morte do autor. E, para minha surpresa e alegria, colocou minha apresentação daquela época a modo de prefácio.

Liberato Póvoa

(Desembargador aposentado do TJ-TO,

Membro-fundador da Academia Tocantinense

de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado)

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Liberato Póvoa - Opinião Pública

Liberato Póvoa (Desembargador aposentado do TJ-TO, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado).

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