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Opinião Pública: INFERNO DE DANTE

Uma das obras mais traduzidas e comentadas no mundo depois da Bíblia, a Divina Comédia de Dante é um dos maiores poemas da humanidade e um acontecimento espiritual e literário basilar do Ocidente. Creio que o que há de negativo na obra é apenas o distanciamento histórico, que dificulta nossa compreensão do contexto político, social, religioso, de linguagem e até mesmo literário. Sim, porque ler uma obra dessas em tercetos rimados não é experiência das mais agradáveis. Conhecer o passado com visão, linguagem e tudo mais contemporâneos além de ser anacronismo, não nos aproxima tanto da época. Temos que fazer o exercício de nos despir das nossas percepções e concepções contemporâneas para nos aproximarmos da obras. Para entendermos a sua raiz e a sua estrutura, é necessário não apenas ir além do que se designa modernamente como literatura, mas também adentrarmos nos domínios como o da história das religiões, da filosofia, da teologia e entender os símbolos sagrados. É um belo exercício! Difícil, mas fabuloso.

O Inferno é  a  primeira parte de um poema que foi escrito no século XIII (não há data exata, mas já era conhecido em 1316). Pensa o que é ler algo escrito há quase700 anos atrás! Gosto de imaginar, voltar no tempo, pensar no Dante, na história da vida dele e o que o levou a escrever tal poema. Acredita-se que ele escreveu o poema depois de ter sido exilado da sua amada cidade, Florença. Mas durante a minha leitura, me questionei muito sobre isso, criei teorias, pesquisei, e claro, não há resposta exata. O que você acha que levaria alguém a escrever sobre uma “viagem” ao Inferno, Purgatório e Paraíso?

Imagino que depois que Dante foi expulso de Florença e na sequência sentenciado a ser “queimado vivo”, onde quer que fosse encontrado, tornou-se um homem sem pátria. “O mundo terrestre atira-o para fora de sua órbita”, e sua imaginação sombria começou a morar no mundo mais hospitaleiro da morte. Impossibilitado de se vingar de seus inimigos na Itália, consolou-se imaginando as torturas mais engenhosas para seus inimigos no Inferno.

Na jornada ao inferno o autor narra de mundos imateriais do além-túmulo. Em sua viagem, auxiliado pelo poeta romano Virgílio (o autor da Eneida) e por sua musa, Beatriz (que na vida real Dante foi apaixonado, reza a lenda que a paixão de Dante por Beatriz foi tão forte,  que ele jamais, em toda vida pode esquecê-la), Dante encontra figuras históricas e visita paisagens de pesadelo e sonho, onde almas são punidas, aguardam julgamento ou descansam eternamente o sono dos justos.Dante assassinou os inimigos da Igreja apenas em sua imaginação, todos esses indivíduos foram feitos para sofrer pelo prazer de Dante e para a glória de Deus.

O autor florentino é eclético, abraçou todas as correntes do pensamento, gnosiológicas, morais e religiosas que lhe antecederam e ainda estavam vivas no seu tempo e tornou tanto o poema como a descrição do inferno um símbolo cultural, um ícone. Provavelmente a noção de inferno que as pessoas possuem no geral é muito mais atribuída ao poema de Alighieri do que a descrição presente nos textos bíblicos que, aliás, sobre o assunto se debruçam em redundâncias e contradições. Por certo que Dante trouxe a imagem do calvário que condensou em suas rimas dos versículos bíblicos, mas é inegável que as tintas renascentistas e as penadas suaves da poesia fez muito melhor serviço no que tange a condensação do inferno enquanto ícone na cabeça da cristandade ocidental do que a Bíblia.

O inferno medieval descrito por Dante na literatura tem as punições variadas e se aplicam conforme os pecados cometidos. Para o poeta italiano, os semeadores da discórdia são cortados em pedaços, e os suicidas vivem como árvores pelo fim dos tempos. Aduladores nadam em mares de excrementos e traidores são condenados a terem suas cabeças comidas por aqueles que traíram. Pessoas sendo excretadas por monstros e homens sendo forçados a se casarem com porcos. Dante vê centauros, o minotauro e o cachorro de três cabeças.

Dante é meramente o porta-voz da Idade Média. É a voz da Igreja medieval. Além da Bíblia, Dante foi educado na infalibilidade de Aristóteles. Os católicos da Idade Média tinham simpatizado com as obras de Aristóteles e de Platão. Sobre alguns aspectos, de fato, o catolicismo medieval não foi mais do que o platonismo batizado.

No caso do paraíso são representados corpos celestes ou, conforme Dante, “céus de estrelas”. No paraíso a narrativa muda de rumo. Dante abandona o tom prescritivo e moralista do inferno e do purgatório, em que buscava proximidade com o leitor, usando recursos retóricos para despertar uma comunhão de idéias. Agora, ele se comporta como um aplicado discípulo demonstrando que fez a lição de casa e respondendo a contento a chamada oral dos santos. É claro que, moralista como era, ele não ia se atribuir respostas que não fossem brilhantes.

Como leitora, e admiradora da obra arrisco-me em alguns versos:

Dante

Presa;

circulando pelos círculos de Dante.

Há saída?

Para fora do martírio?

Todos voam

como se atrevem?

Dêem desse absinto,

essa verdade absurda, vã, sinistra!

Morri quando nasci;

já presa no círculo.

Olhos cativos

no calor de Verão.

Não sei para onde ir,

seria possível? Perder-se no nada?

Ah, a espera…

Por um momento aspiro estar pressa!

No lirismo

sombrio,

como numa emboscada:

efervescente!

A culpa é de Dante?

Josanne Gonzaga, Poeta (04 Livros publicados, e participação em 03 Antologias), Administradora de Empresas, EneaCoach  pós graduando Gestão de Pessoas E-mail [email protected]

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