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Opinião Pública: A profecia de Coimbra

Li, praticamente de uma sentada, em menos de 48 horas, o livro “Operação Huricane – um juiz no olho do furacão”, de 379 páginas, em que o grande jurista J. E. Carreira Alvim, envolvido numa denúncia de venda de decisões no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (Rio de Janeiro e Espírito Santo), descreve com minúcias todos os momentos por que passou, desde a sua prisão, às 5h30m da manhã do dia 13 de abril de 2007, por agentes da Polícia Federal, por ordem do ministro Cezar Peluso, do STF, passando nove dias encarce­rado em Brasília, enquanto a mídia se deleitava com flashes sensacionalistas.

 Passagem interessante se vê às páginas 228/234  (“Profecia de Coim­bra”), que relata um encontro casual do autor com um indiano que lia a sorte em Coimbra, Portugal.

A esposa de Carreira Alvim, a também jurista Terezinha, a Tetê, passando por Coim­bra, e afeita a videntes e cartomantes, interessou-se e foi fazer uma consulta com o tarólogo indiano.

Voltando ao hotel, relatou ao marido o que o vidente dissera: que o casal teria “um grande furacão” em suas vidas e que “a destruição seria tão grande, que teriam que ter forças para juntar os cacos”. Tetê até pediu para o marido ir lá fazer uma consulta, tendo ele dito que não acreditava nessas coisas.

Embora cético nessas questões de vidência, Carreira Alvim, sem dizer nada à mulher, decidiu dar uma fugidinha da Universidade de Coimbra e foi até o in­diano, por mera curiosidade, para ouvir o que este teria a dizer.

Sem se identificar, foi lá sozinho, e o homem lançou as cartas do tarô para ler seu futuro. Quando terminou, disse-lhe que um furacão varreria sua vida e que ele deveria estar preparado e “ter forças para juntar os cacos”.

Ele quase caiu da cadeira, pois o vidente não sabia que Carreira Alvim era marido de Tetê, a consulente de dois dias antes. Ele argumentou com o tarólogo que era improvável ocorrer aquela previsão, pois sua atividade profissional não ofe­recia riscos, ao que o homem reafirmou a catastrófica previsão.

Para testar se se tratava de um charlatão, Carreira Alvim perguntou se era possível ele fazer alguma coisa para evitar o cumprimento da funesta previsão.

Mas recebeu a resposta de que nada podia fazer e que ele “deveria estar preparado” para que quando ocor­resse a situação soubesse enfrentá-la.

Ele voltou para o hotel visivelmente impressio­nado, pois se o indiano fosse charlatão seguramente ter-lhe-ia tomado dinheiro a pretexto de fazer algum “trabalho”.

Cinco anos após esse episódio em Coimbra, veio a derrocada de Car­reira Alvim. E, mais impressionante, a operação que o levou à prisão tomou o nome de “Operação Hurricane” (“furacão”, em inglês), como previra o indiano, que, segundo Alvim, deveu-se a um conluio entre a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário. E Carreira Alvim penou com algemas, prisão por nove dias, e acabou por ser aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça.

Como explicar isso?

Liberato Póvoa

(Desembargador aposentado do TJ-TO,

escritor, jurista, historiador e advogado)

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Liberato Póvoa (Desembargador aposentado do TJ-TO, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado).

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