Portal Opinião Goiás: A lenda da mulher

Opinião Pública: A lenda da mulher

A propósito de existir o “Dia da Mulher” (que já é discriminação, porque não temos o “Dia do Homem”, nem a “Delegacia do Homem”), veio-me à mente uma lenda, que tenta explicar a inconstância das relações entre o homem e a mulher e das razões por que as rusgas acabam se acalmando debaixo dos lençóis.

Era eu menino, lá no Ginásio João d´Abreu, de Dianópolis, quando o velho e sábio mestre Monsenhor Magalhães contou uma lenda hindu, que era mais ou menos assim, se não me falha a memória:

“Certo dia, Deus misturou as curvas da lua e as ondulações da serpente, a esbeltez da palmeira e a frescura da rosa, a leveza da folha e o aveludado do pêssego, o terno olhar do cordeiro e a inconstância da brisa, as lágrimas da chuva e a alegria do raio de sol.

A isso Deus acrescentou a timidez da lebre e a vaidade do pavão, a maciez da penugem do pintainho e a dureza do diamante, o sabor açucarado do mel e a crueldade do tigre, o frio da neve e o calor do fogo, o piado dos pardais e o arrulhar dos pombos.

Deus misturou todas essas coisas e com elas formou a mulher. Ela era graciosa e sedutora. Achando-a mais formosa que a gazela, Deus orgulhou-se de sua obra, admirou-a e fez dela presente ao homem, para companheira no Paraíso.

Mas, oito dias depois, o homem, aborrecido, procurou o Criador e disse:

– Senhor, a criatura que me destes envenena minha existência. Ela fala sem parar e se queixa por qualquer coisa. Chora e ri ao mesmo tempo. Ela é inquieta, exigente, trapalhona. Ela está sempre atrás de mim, não me dá um minuto de descanso… Ela anda repetindo: “Você não gosta mais de mim? … Por que você está com a cara amarrada?… Você não me agrada nunca! Vivo tão sozinha!…”. Por favor, Senhor, aceitai-a de volta, porque não posso viver com ela.

E Deus, paternal, recebeu a mulher.

Mas, oito dias depois, voltou o homem a Deus e lhe disse:

– Senhor, minha vida está muito solitária depois que vos devolvi aquela criatura. Ela cantava, dançava, que era um encanto. E que suavidade quando ela me olhava sem voltar a cabeça, somente com o rabinho dos olhos!… Ela brincava comigo, e não há, nas árvores, fruto tão bom quanto suas carícias. Eu suplico, Senhor: quero-a de volta, porque não posso viver sem ela.

E Deus, paternal, devolveu-lhe a mulher.

Mas, oito dias depois, o homem voltou ainda e lhe disse:

– Senhor, não sei como é isto, mas estou bem seguro de que esta criatura me dá mais aborrecimento que prazer. Tomai-a de volta, porque não quero mais saber dela!

Desta vez, Deus se zangou:

– Homem – disse o Criador -, volte para sua choupana com a sua companheira e aprenda a suportá-la. Se eu a guardasse, dentro de oito dias você me importunaria para reavê-la!

E o homem se retirou muito triste, suspirando:

– Como eu sou infeliz! Duplamente infeliz, porque não posso viver com ela, mas também sem ela não consigo.”

É o tal negócio, que até inspirou um ditado sertanejo: “Quem come a carne tem que roer os ossos”, dando a entender que a vida não é feita só de momentos bons.

O duro mesmo não é a mulher, que às vezes é mesmo complicada, mas a gente tolera (porque ela também tolera a gente): são uns penduricalhos chamados sogra e cunhados, que já vêm como incômodos aderentes, cheios de vontades e “direitos” (que o felizardo homem da lenda não tinha).

Liberato Póvoa

(Desembargador aposentado do TJ-TO,

escritor, jurista, historiador e advogado)

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Liberato Póvoa (Desembargador aposentado do TJ-TO, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado).

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