MITO E(M) POLÍTICA: PRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO FARSA.

De saída, vale recordar o testemunho de Primo Levi. Levi foi um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz e, em seu primeiro livro, Se isto é um homem, nos recomenda a lembrança dos horrores passados na Europa no tempo das suásticas, dessa maneira, “vós que viveis tranquilos nas vossas casas aquecidas, vós que encontrais regressando à noite comida quente e rostos amigos […] meditai que isto aconteceu” . O chamamento de Levi é para uma memória a respeito dos perigos que rondam – ontem e hoje -, a nossa civilização. O espectro que circunda a sociedade democrática é o fantasma do fascismo, que muitos acreditavam ter sido erradicado do cenário ideológico da política após a segunda guerra planetária, o que não aconteceu. A teoria política do fascismo demanda análise de uma complexa ideologia, o que não é nossa pretensão nesse texto. O objetivo aqui é apresentar alguns elementos que dizem respeito à ideia de mito e sua relação com a política, muito especialmente pela aproximação desse conceito a alguns atores do cenário político internacional e nacional, inclusive em nossos dias.
Nesse sentido, nessas breves linhas, pretende-se uma aproximação da teoria política do mito, muito cara ao pensamento de linhagem fascista. Em outra oportunidade tivemos a chance de analisar outro elemento conceitual importante ao universo fascista e autoritário, qual seja: a noção de crise . A crise serve de bom argumento para ideologia autoritária mobilizar suas forças no sentido da construção teórica e prática da ideia de mito, principalmente no sentido de mistificação de uma personalidade que pode encarnar -em sentido teológico -, todas as virtudes a fim de bem combater o mal. Invariavelmente, a maldade, para essa vertente, instala-se na ação política combativa, crítica e reivindicatória, bem como nas instituições da democracia parlamentar, o que exigiria uma ação da providência, com um enviado dos céus para por fim a ação corrupta da civitas terrena. O mito em política assume essa característica teológica de fundo providencialista, com o primado do irracional, esse último agindo como artifício de controle intelectualista e de integração política total da sociedade, uma técnica de contágio e evocação das emoções escondidas nos confins da alma humana, ou seja, em momentos de crise há possibilidade de construção de uma falsa necessidade da vinda de um Messias que teria o poder de por fim as mazelas que afligem os corações humanos.
Em termos históricos, ao acompanharmos o testemunho de Primo Levi, podemos relembrar que a edificação de um mito em política levou a civilização àquilo que talvez seja a maior tragédia de que se tem notícia. O seu aparecimento pode de início não implicar em violência e sangue, mas, consequentemente, o dispositivo de mistificação da personalidade originada do mito do Messias que purificará a política somente pode implicar no controle autoritário e total da sociedade, cuja consequência, ontem, foi à tragédia dos campos de concentração e extermínio nazistas, uma cicatriz que não pode nos deixar esquecer, conforme nos diz Levi “essas coisas realmente aconteceram […] não séculos atrás, não em países remotos [mas – CHLR] no coração da Europa”.
Em nossos dias é possível verificar um cenário que muito se assemelha ao período que antecedeu a Europa dos tempos dos campos de concentração, o que nos autoriza a pensar que – em termos brechtianos -, vivemos novamente em tempos sombrios. Ressurgiu na cena política nacional e internacional um discurso autoritário de linhagem fascista que perigosamente vem ganhando corpo, muito por sua capacidade de atuação na mobilização de forças irracionais em conjunto com um alienado sentimento de mudança. Ora, o irracional e o sentimento de mudança são exatamente os elementos de que precisa o mito para mobilizar as forças recônditas da alma humana para aspirações de ordem e hierarquia, sendo que essas últimas passam a ter lugar privilegiado – quase olímpico -, na escala dos valores e, via de consequência, as crenças e aspirações democráticas são eclipsadas, quando não extirpadas.
O ponto fundamental a ser observado é que o mito salvacionista, o Messias que poderá vir a disciplinar, moralizar e organizar a política, não se trata de um enviado do céu, mas, sim, de um César, cuja pretensão é o estabelecimento de um regime político autoritário e de servidão, muito longe de uma defesa das liberdades e de uma esfera pública democrática, ou seja, a longos passos de distância de um resgate da dignidade da política. A imagem clássica do cesarismo é a ditadura, portanto, a mistificação de qualquer personalidade em termos providencialistas não passa de uma farsa, uma fraude que apenas pretende destruir a possibilidade da participação em liberdade dos cidadãos da esfera da política. Assim, conforme mencionou o Papa Francisco em recente entrevista ao periódico espanhol El País, trata-se de um verdadeiro perigo buscar um salvador que nos devolva a identidade ou nos proteja com muros em tempos de crise. Desse modo, mistificar uma personalidade ao ponto de alça-la a um mito é um agir irracional, uma ação ideologicamente voluntaria que pavimenta o caminho para o regresso ao mundo obscuro dos regimes autoritários e aos grilhões da servidão.

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Caio Henrique Lopes Ramiro - Opinião Pública

Caio Henrique Lopes Ramiro é professor no curso de direito da Faculdade Cidade Verde (FCV), em Maringá-PR. Advogado.

Um comentário

  1. Mitos de ontem “caçadores de marajás”…mitos de hoje Messias sem farda esquizofrenicamente bradando “valores”…mais do mesmo…tragedia anunciada

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