BrasilDestaqueGoiâniaGoiásManchetesOpiniãoOpinião PúblicaOpinião Pública LeitorPolítica

Especial com Rafael Aparecido Mateus de Barros – A crise é culpa do PT?

Acabamos engolidos, por uma crise econômica.

Há, portanto, aglutinação de acontecimentos, fatos e a acentuação de práticas sociais e culturais que permaneceram latentes. Se, durante os governos no PT persistiu um pacto entre as elites, a parte dominante e exploradora da sociedade, cuja mediação exercida pelo PT garantiu avanços sociais e econômicos, retirou parte da população da indigência integrando-os, intensamente, a competição por posições de poder e prestigio, bem como, incrementou o consumo para certos estratos sociais e, ao mesmo tempo, na qual se consolidava em nossas mentes e corações que ali se sedimentava o terreno propício a disputa por direitos poderia se desenvolver e vicejar, entretanto o que ocorreu no ano de 2013 evidenciou que estava-se longe demais de tudo isso, afinal de contas em 2013  verificou-se, para além da juventude das periferias na luta política, a imensidão do oceano de contradições que mobilizadas e, de certo modo, contidas pelas políticas dos governos petistas.

O atual momento há, explicitamente, a emersão das práticas sociais deixadas em latência, não há interesse nenhuma das classes dominantes, dos donos do poder, em ampliar a participação na política, existe um rechaço em relação a qualquer identificação do Estado com o republicanismo tributário da Constituição de 1988; a ilusão que fomentada acerca do terreno que pisávamos se voltou contra nós, porque, ao passo, que a integração social, a distribuição de renda, as medidas compensatórias delineavam um horizonte de abertura para uma sociedade menos hierarquizada, desigual e violenta.

Acabamos engolidos, por uma crise econômica – de acordo com alguns é estrutural – que se arrasta, no centro do capitalismo desde 1970 e que no Brasil, fez eco, em 1990, cuja receita para resolver todos os problemas superficiais e crônicos é mundialmente conhecida como: neoliberalismo; mas, ao meu ver, a grande ameaça a lucratividade das elites desse país, começa em 2008, com uma imensa crise financeira e imobiliária nos EUA e Europa – o resultado é bem conhecido, bancos privados salvos pelo Estado, cifras inimagináveis transferidas diretamente para o mercado, e nenhum banco tornou-se estatal, ao contrário, o que se tornou estatal, isto é, os donos do poder deixaram para o Estado e para o conjunto dos “cidadãos” à fatura ser paga, materializada em dívida pública, interna e externa, e a – também famosa mundialmente – austeridade; Nesse sentido, nosso país revive aquilo que sempre esteve escrito na testa das elites nacionais: o desprezo pelo povo; a subserviência aos interesses do imperialismo; e a dominação violenta através do Estado.

A forma brutal e cínica com que conduzem a mudança de uma sociedade de democracia de baixa intensidade para uma forma de dominação que mantém a aparência do estado de direito, mas que qualitativamente projeta-se o direito privado em detrimento do coletivo: 1) o meu direito de estudar quando as escolas estão ocupadas por estudantes os quais reivindicam melhores condições para a educação; 2) meu direito, individual de ir e vir, quando há uma manifestação em defesa da democracia; 3) meu direito de fazer valer o contrato firmado entre indivíduos livres, para vender meu trabalho e o patrão pagar por ele, mas sou impedido quando a categoria está em greve; 4) o direito de dominar qualquer pessoa em situação subalterna e de vulnerabilidade, quando as pessoas subalternas exigem igualdade e o vulnerável já consegue me confrontar. Quero dizer a vocês aquilo que na Constituição representa e, está deixando de representar, a possibilidade de luta por efetivação de direitos de reconhecimento como pertencimento do conjunto dos cidadãos, da sociedade civil. O quadro atual expressa a visão de mundo que é dominante entre as mentes e corações na qual a meritocracia solapa a solidariedade, à propriedade privada é o bem comum, os direitos coletivos são tornados privilégios e os privilégios das elites encarados como direitos, resultantes de trabalho febril e da mais pua dedicação.

Está em curso, não só, um reordenamento institucional no que se refere a estrutura formal da tomada de decisões do poder do Estado, é mais agudo e profundo, o que o ocorre nesse período definimos por “mudança social provocada”; senão vejamos, durante o período do PT a diversidade, “dos de baixo”, manteve-se atrelada as políticas do governo petista, de um lado conformavam a base para fazer política e, ao mesmo tempo, projetava-se à diversidade social e a polissemia de vozes com necessidades, as mais variadas, a muito tempo reprimidas e oprimidas; entretanto, em razão da crise foram catalisadas, cooptadas, atraídas por respostas dadas pelas elites; nesse momento a esquerda comeu mosca porque não aprofundou o debate, preferiu, comodamente, atacar o PT; a conjuntura atual exige que a esquerda articule, faça política no seu próprio campo de atuação, a diversidade de sujeitos exige a substituição receitas a priori, por um projeto de unidade que conjugue todas as vozes e sujeitos, que seja capaz sintetizar as demandas mais sentidas do povo sem deixar de lado a alternativa socialista. Como diria o Chico de Oliveira, a questão do bloco histórico do Gramsci não é mais ponto de chegada é o ponto de partida.

 

Rafael Aparecido Mateus de Barros

Mestre em Sociologia

Professor e apreciador de Futebol

Especial com Rafael Aparecido Mateus de Barros – A crise é culpa do PT?
4.7 (94.29%) 7 votes
Tags
Mostre mais

Rafael Aparecido Mateus de Barros - Opinião Pública

Rafael Aparecido Mateus de Barros é Mestre em Sociologia, Professor e apreciador de Futebol.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *