Marcos Manoel Ferreira: 21 de janeiro de 2018 – 22:09      

Um dos maiores sucessos na voz da Marina nos anos 80 foi a música Uma noite e meia que diz: “Vem chegando o verão, um calor no coração…” e muito mais que calor, praias lotadas, chuvas e o Déjà vu da ingerência governamental nas cidades brasileiras!

O verão sempre inspirador contrasta a beleza da estação, com as tragédias anuais, causadas pelas chuvas não necessariamente, como os governantes insistem em justificar. E sim, pela incompetência do poder público, que com um descaso assustador, ignora problemas recorrentes, responsáveis por catástrofes que nos causam tantas dores, sofrimentos, desabrigados e indignação.

O abismo social histórico construído pela má distribuição de renda e pelo descaso do Estado e das elites em relação às políticas públicas, voltadas para moradia e saneamento básico, fomentam o caos habitacional e as doenças decorrentes da falta da coleta de esgoto e água tratada. Em tempos difíceis, tem que ter coragem para falar de moradia e comida para quem trabalha, afirmou o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht.

Não adianta somente mais médicos, hospitais e remédios, se não agir com responsabilidade e eficiência em políticas de prevenção. Segundo o Instituto Trata Brasil com base nos dados de 2014 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), divulgou pelo Ministério das Cidades, que metade da população brasileira ainda não tem esgoto coletado em suas casas e cerca de 35 milhões de pessoas nem sequer têm acesso à água tratada no País. O índice (49,8%) coloca o Brasil em 11º lugar no ranking latino-americano deste serviço, atrás de países como Peru, Bolívia e Venezuela. Os dados dessas nações são compilados pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), que divulga o índice de 62,6% para o Brasil porque inclui fossas.

Lamentavelmente, por exemplo, Goiânia capital do Estado de Goiás, Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade do Estado, parte da população de ambas, padecem do mesmo mal. Em condições insalubre, vergonhosa e constrangedora.

Brasil a fora, moradias irregulares, erigidas em igarapés fétidos, às margens de córregos que se misturam aos esgotos e correm a céu aberto exalando descaso. Infestados por mosquitos e com eles as mais diversas doenças, roedores, insônia, contribuindo para a formação “digna” de invisíveis indivíduos, que ainda não se veem como cidadão, por um Estado que insiste em ignorá-los, sob a inépcia e o olhar míope de autoridades públicas.

Construções em paredões movediços, morros íngremes e frágeis, em encostas inóspitas nas grandes cidades, apinhadas de barracos, casebres de tábuas, papelão, entulhos, vivendo perigosamente pendurados e em condições improváveis. Estes são os brasileiros excluídos das estatísticas governamentais, são os marginalizados aos olhos dos que insistem de uma forma ou de outra, fazerem de conta que não existem.

O abandono e a vulnerabilidade social, jogando literalmente morro a baixo, sonhos e esperanças de uma vida melhor e mais digna. Tudo isso reflete e refletirá no crescimento do analfabetismo, indigência, mendicância e inevitavelmente, a violência.

A inabilidade e a omissão governamental de investimentos em políticas públicas capazes de transformar e resgatar a dignidade desses excluídos fará com que esse mesmo governinho e a sociedade civil, arquem mais tarde, com a construção de mais presídios e o crescimento do arcaico discurso típico dos equivocados: “bandido bom é bandido morto”. Resta saber, quais são os “honoráveis bandidos”!

É verão e tudo novamente. Região Serrana do Rio de Janeiro, Teresópolis, Petrópolis, Sumidouro, Cabo Frio, Nova Friburgo, Litoral Norte de São Paulo, Belo Horizonte, Barbacena, Vila Roriz em Goiânia… Inundações, deslizamento de terras, desmoronamentos, desabrigados, prejuízos, mutilados, mortos… Até quando senhores governantes? Enquanto houver chuvas? Enquanto faltar brio e boa vontade em quem deveria fazer algo e não faz? Quantos ainda serão os desabrigados ou morrerão na estação do “calor no coração”?

Claro, que é em tempo ressaltar, o papel de uma parcela da sociedade na contribuição de parte dessas inundações. Ao jogar lixo em vias públicas, poluir rios, córregos e nascentes, contribuindo para entupimento de bueiros, numa demonstração explícita de irresponsabilidade e falta de educação.

A situação no Brasil e – olha que não é piada – chegou ao ponto, que se chover é problema e se não chover também! Ou seja, a questão sempre é a chuva ou a falta dela. Para os energúmenos – do grego – adeptos desse discurso leviano, São Pedro é o culpado! Nunca de quem teria a responsabilidade legal, de saber que todo ano chove desde que mundo é mundo.

A questão é outra, falta de gestão. Planejamento, investimentos em infraestrutura, moradias, saneamento básico, todas indiscutivelmente previsíveis. As provas estão nas tecnologias de ponta, engenharia, serviços meteorológicos avançadíssimos e capazes de previsões em tempo real. Exemplos clássicos de irrigação no deserto do Atacama por gotejamento – o mais seco do mundo – no Chile e em Israel.

Aos pés do século XXI, culpar as forças da natureza pelas desgraças que o homem faz me parece asnático e temerário. Na verdade, “eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga. Hoje vejo que ela se parece muito com a primeira”, disse Ronald Reagan.

Penso que as instituições do Estado, muito mais que resgatarem corpos de indigentes e sobreviventes miseráveis de escombros em tragédias anunciadas, fruto da covardia e irresponsabilidade; muito mais que fazerem levantamentos e registros estatísticos de mortos e ignorados, desabrigados das catástrofes anuais, deveriam convergir seus esforços, para impedir que isso se repetisse! Seria mais humano e honroso.

Portanto, culpar as chuvas pelas cheias ou a falta dela pela seca, seria no mínimo, irresponsável. Além do mais, logo logo começará o Carnaval e é hora da celebração nacional das nossas mazelas e da amnésia social e histórica.

 

 

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, Historiador, Escritor. Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior.  [email protected] e www.vozesdasenzala.blogspot.com.br

 

 

Especial com Marcos Manoel – VERÃO
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Marcos Manoel Ferreira - Opinião Pública

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, Historiador, Escritor. Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior.

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