Especial com Marcos Manoel – UM POUCO DA GRANDE ÁFRICA

           Estudos antropológicos, arqueológicos e históricos da África, exigem um mergulho mais profundo em águas turvas e turbulentas, as quais desvelam além de um gigantesco universo geográfico, econômico, cultural e multiétnico, desmistifica e desconstrói os estereótipos equivocados que ainda permeiam o imaginário, sobre esse fascinante continente.

          Anderson Oliveira Oliva, em seu artigo: A Invenção da África no Brasil: Os africanos diante dos imaginários e discursos brasileiros dos séculos XIX e XX referencia sua discussão, destacando de início o recorte temporal – XIX e XX – norteando as questões levantadas. Destacando a necessidade do afastamento dos campos econômicos, política externa, relações pessoais e culturais, como também no campo do imaginário. O que gerou uma construção falseada e muito distante da essência cultural africana.

            Esse processo, ainda segundo Oliva, observamos a representação dos africanos pelo imaginário europeu, consolidando o olhar eurocêntrico e o distanciamento da realidade africana, sua histórica diversidade cultural e infindas riquezas naturais. Durante algum tempo, outro aspecto relevante abordado pelo autor, foram os movimentos de afastamento e aproximação da África, quebrando de – tempos em tempos – longevos períodos de silêncio e separação entre bantos e sudaneses, os “mais primitivos” e os “menos primitivos” respectivamente.

            Outro aspecto que contribuiu e é considerado parte desse conjunto de ingredientes constitutivos para o adormecimento dessas relações, para Alberto da Costa e Silva, o primeiro, o fim do tráfico negreiro para o Brasil; o segundo, a instalação dos domínios coloniais europeus, o Imperialismo no final do século (XIX) e o período pós-independência, em grande parte na segunda metade do século XX. “O que separava deixou de ser um rio e tornou-se um oceano”.

             A memória ficou refém de algumas imagens e por razões óbvias (escravidão) como laços entre os dois lados do Atlântico. Como o próprio autor afirma, uma ponte “frágil” foi uma tentativa se restabelecer uma relação (segunda metade do século XX) e com avanços e retrocessos. Como a crise internacional e o processo de redemocratização brasileiro, que forçosamente resultou em um novo afastamento, abrindo caminho para aproximação da América do Norte.

              As políticas em relação aos negros no Brasil e a África durante os Governos entre 2003 – 2011, Sobra Saraiva, afirma “a “dívida histórica” com os africanos; a vocação universalista da política externa brasileira […]” e as perspectivas de mudanças desse olhar sobre a “construção do imaginário brasileiro em relação à África, na visão de intelectuais e dos movimentos negros organizados”. Portanto, segundo Oliva, o conhecimento e as referências sobre os africanos, continuam longe “da memória e dos olhares de grande parte dos brasileiros”, mesmo frente ao grande legado cultural africano, não foi o suficiente para um olhar diferente, que de uma África homogênea e europeia.

             Percebemos também, que além dessa construção histórica equivocada, a mídia fomentou, teve e tem papel de destaque em reforçar, rotular o continente africano, marcado apenas por catástrofes, guerras, violência, indigência, miséria, além da ínfima contribuição cultural e política. Ingredientes perversos na construção desse imaginário depreciativo, deturpado, racista sobre uma África muito maior do que aquela que seus infames invasores semearam e saquearam. Nesse universo sobre a cultura africana e suas contribuições na formação do povo brasileiro, por exemplo. Três grandes autores, entre outros, sintetizaram e definiram essa relevância histórica e cultural, na construção das riquezas dos canaviais e cafezais brasileiros: Raimundo Nina Rodrigues, Sílvio Romero e Caio Prado Júnior […].

            Portanto, compreendermos a África sob a perspectiva da ciência, o crivo da análise crítico-reflexivo, sob a ótica do processo de formação histórico, étnico e cultural no continente africano. Indiscutivelmente, contribuirá para a ruptura de paradigmas, transposição de barreiras vergonhosas de séculos e séculos de enganos, equívocos e uma visão míope, maldosamente construída, distorcida sobre uma terra, um povo, uma cultura milenar, que para muitos, ainda faz parte de um universo distante, surreal, selvagem e imaginário. Alicerçado na ignorância, preconceitos, racismo, frente a uma história contada apenas por um lado e que não foi o do africano. Desconstruir essa imagem da África – após essas leituras e o mergulho nesses autores -, possibilitar-nos-á a superar estereótipos há tempos construídos e arraigados em bases deturpadas e de absoluto desconhecimento.

              A leitura é fonte inesgotável do conhecimento, possibilitando um eviterno descortinar crítico sobre esse processo histórico, cultural africano e como os afrodescendentes mantiveram suas raízes, mesmo frente à diáspora, aos desafios geográficos e a opressão.

 

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Historiador e Pedagogo. Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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Marcos Manoel Ferreira - Opinião Pública

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). [email protected], www.vozesdasenzala.blogspot.com.br

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