Especial com Marcos Manoel – UM POUCO DA GRANDE ÁFRICA – 2

           Frente às inúmeras leituras e reflexões em relação às temáticas abordadas sobre o despertar da humanidade, Leila Maria Gonçalves Leite Hernandez, em O olhar imperial e a invenção da África e Samwiri Lwanga-Lunyiigo e Jan Vansina, em Os povos falantes de banto e a sua expansão, em ambas, percebemos uma África grandiosa e riquíssima. Princípio elementar e imprescindível, para um conhecimento que possibilite uma aproximação maior da legítima história africana, contribuindo para romper paradigmas e equívocos históricos sobre esse continente e seus povos. Informação e reflexão, condições necessárias para um olhar mais crítico e transformador.

          Segundo o historiador grego Heródoto, “o Egito é uma dádiva do Nilo”. Um imergir histórico em águas férteis e abundantes do mais extenso rio do mundo – 6.853 km – margeado por uma rica biodiversidade, grandes plantações de arroz, trigo, banana, palmeira, papiro, ébano, entre outras culturas, revelando-nos uma obra-prima, de “faraônicas” construções e reinos poderosos ao longo de todo seu caminho. A África revelou-se não só como o “berço da humanidade” e o provável início da Teoria Evolucionista, como também, um continente farto, impérios monumentais e cultura marcante. Que resistiu ao tempo, às intempéries da natureza e a rudeza de lutas infindas e invasores históricos.

          Terras abundantes, ardente e resistente como seu povo, que se fez em meio a desertos e oásis, savanas e florestas, mares e rios, sob a resistência e a égide de grandes guerreiros e chefes tribais. Ergueram reinos poderosos, desenvolveram culturas e tradições milenares, inúmeras línguas e dialetos, revelando uma diversidade cultural e geográfica singular. Flora e fauna exuberantes, que resistiram a escaldantes secas e tempestades indomáveis, alicerçando um continente – por muitos – desconhecido, “místico, lendário e selvagem”, diante de uma ignorância histórica – e por outros, admirada e usurpada.

          O despertar das primeiras civilizações no continente africano, os egípcios estabeleceram contatos com outros grandes povos e culturas, como gregos, romanos, macedônios, persas e tantos outros, impressionando a todos pela grandiosidade de seus monumentos, sua magnífica arquitetura e cultura, repleta de palácios, templos e pirâmides. Mais tarde, a África entrará em contato com os árabes e o processo de islamização de parte do continente.

           Ao sul do Saara, conhecida como “África Negra” ou Subsaariana, Samwiri Lwanga-Lunyiigo e Jan Vansina, destacaram a grande importância linguística dos Bantos e a estruturação de uma cultura própria. Deslocando-se do oriente em direção ao sul da África, atualmente nas regiões da Nigéria e Camarões, atingindo o auge de seu expansionismo entre os séculos VIII ao X. Com características nômades, os Bantos espalharam-se pelo continente e não constituíram um grande império, misturando-se a outros povos e legando muito de sua cultura por toda África.  Como por exemplo, a língua que deu origem a mais de 1.000 dialetos e muitos deles ainda falados nos dias atuais.

          O grande legado cultural e toda sua importância étnica africana; a sabedoria popular dos grandes guerreiros e chefes tribais; os anciãos e seu papel na preservação do patrimônio e das tradições culturais seculares nas comunidades; a força e a importância dos laços familiares e com a mãe-terra. Cultura transmitida oralmente e em todos os lugares; a importância das lendas e dos costumes na construção da história dos povos da África; o iorubá e as inúmeras línguas e dialetos; as religiões de matriz africanas, a força e a grandeza de seus orixás, babalorixás, babalaôs e seus rituais.

            Destacou-se também a importância histórica e cultural dos povos de Angola, Mali, Congo, Benin, Togo e todas as suas contribuições dentro de um processo sincrético e latente, por exemplo, na cultura brasileira. Ocorrendo um contato direto, a partir de fins do século XIV, quando europeus e africanos, intensificaram a atividade comercial escravocrata, além das fronteiras da África. Atividade que inclusive, já ocorria no continente, antes mesmo do contato direto com os portugueses e a sanha mercantilista.

           No século XIX a busca por novos mercados fornecedores de matéria-prima e consumidores, gerou uma disputa voraz para atender as necessidades do capitalismo industrial, intensificando-se a pilhagem na África e Ásia, fomentando a política imperialista e o discurso da “supremacia racial”. Criando abismos históricos, sociais, culturais, étnicos, internos e externos, abrindo feridas “incuráveis” como as fomentadas pelas fronteiras artificiais, paridas na irresponsável Conferência de Berlim (1884-1885). Ecoam pelos séculos, a rapinagem e a exploração, reforçando o racismo e a miséria de um continente paradoxalmente, rico e fecundo.

           Uma diversidade cultural e religiosa riquíssima, fruto do sincretismo e do ecletismo cultural-religioso. Que nos legou não só um povo multirracial, como também, o cristianismo e suas convicções, a grandeza das religiões de matriz africanas e suas tradições milenares. Das catedrais e sinagogas, as mesquitas e terreiros; de todos os santos aos orixás; do sincretismo religioso ao respeito e a tolerância. O folclore e a religiosidade presentes na tradição.

            A ação imperialista foi devastadora e insana. Miséria, fome, guerras civis intermináveis, descontrole da AIDS, epidemia de Ebola e tantas outras mazelas, que revelaram ao mundo dos séculos XIX, XX e XXI, a imagem assustadora de um continente “atrasado, pobre e selvagem”! Passando pelo exótico e o primitivo. Como justificativas para a exploração e a sentença de morte de grupos étnicos milenares. Além do massacre cultural e a marginalização das religiões afro. Ao longo deste processo histórico, europeus – principalmente – subestimaram os problemas africanos e asiáticos, ignoraram seu povo e seus problemas, fomentaram o caos, resultando numa tragédia humanitária, sem precedentes!

           Compreendermos esse processo histórico, é essencial, para termos clareza do quanto o mundo tem ignorado seu passado e presente, contado a história de uma África sob a perspectiva eurocêntrica, que os africanos desconhecem! Existe outro lado nessa história – a verdadeira – que é desconhecida. Pelas mãos e pés de guerreiros que por sua pele negra, resistentes como ébano, foram historicamente inferiorizados e marginalizados, pela pseudociência da Eugenia, alicerçada na intolerância e no darwinismo social.

           Uma reflexão constante sobre esses aspectos abordados nos referidos textos, que muito nos enriquece, a convivência com tamanha diversidade étnica, religiosa e cultural. Coloca-nos frente a frente, com questões desafiadoras, pautadas pelo respeito e a tolerância. Princípios elementares, básicos, grandiosos e determinantes para a construção de uma sociedade e um mundo mais justo, fraterno e igualitário. Evidenciarmos a importância da cultura africana, suas tradições e contribuições para com a história da humanidade, no desmonte de uma visão deturpada e equivocada do continente africano, contribuindo para desenvolvimento de uma consciência crítica, capaz de combater o racismo, a indiferença, rejeição, violência, preconceito, os “olhares tortos”, acusadores e pré-julgamentos, para os “sempre suspeitos” alvos.

           É preciso e urgente, um despertar ruidoso – educação, sociedade como um todo – sob a luz da ciência e da razão, um olhar crítico para uma população de indivíduos excluídos socialmente, culturalmente, que seu maior “crime”/legado é a cor negra da pele! Que carregam na alma marcas do açoite e do exílio, o ranço mal cheiroso das senzalas e as mãos calejadas dos construtores de boa parte da riqueza e grandeza de inúmeras nações – cristãs e democráticas. Que insistem em renegá-los, negar uma das maiores vergonhas históricas e moral da humanidade, a constrangedora escravidão, que não há discriminação racial e social, contra os anônimos nas páginas policiais, nos obituários diários e nos anais da história.

           Portanto, querendo ou não, todos nós temos sangue negro! Alguns, nas mãos. A mesma que segurou o chicote e hoje ostenta o racismo, a hipocrisia e a intolerância!

           Axé!

         Marcos Manoel Ferreira, Professor, Historiador e Pedagogo. Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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Marcos Manoel Ferreira - Opinião Pública

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). [email protected], www.vozesdasenzala.blogspot.com.br

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