Especial com Marcos Manoel – O CLARÃO DA INSENSATEZ

74 ANOS DO COGUMELO ATÔMICO

         Há exatamente 74 anos o mundo assistiu estupefato, os horrores da insanidade humana, sob o pretexto de uma guerra estúpida, testemunho de força e arrogância dos USA, contra o outrora sanguinário algoz asiático. Vidas inocentes, ceifadas precocemente, em nome da famigerada perversidade bélica.

         É claro que o Japão também teve sua “parcela” nesta tragédia – não que justifique –, como o ataque aeronaval da Marinha Imperial Japonesa, a base naval norte-americana de Pearl Harbor no Havaí, em 7 de dezembro de 1941. A resposta veio naquela fatídica e apocalíptica manhã de 6 de agosto de 1945 e os japoneses, usados para outras aspirações norte-americanas, que se confirmaram no pós-guerra. Uma resposta desproporcional, com objetivos muito além que “apenas” punir ou vingar dos japoneses.

          Roosevelt o grande idealizador do famoso Projeto Manhattan, consumiu vultosos investimentos sem precedentes na história, esforço concentrado que envolvia os maiores físicos, químicos e cientistas da época, que após anos de pesquisas e milhões de dólares, estava pronta a mais letal arma que a humanidade já havia criado, a bomba atômica!

         Quando o pássaro alado gigante, USS Indianópolis B-29, vomitou sobre a cidade industrial de Hiroshima, a radioativa e mortífera “Little Boy”, com um indigesto recheio de Urânio – 235 e liberando uma energia equivalente a 20 mil toneladas de TNT. Uma temperatura acima de 1 milhão de °C, sentida em um raio de 3 km de distância, provocando uma onda de choque, um vento que varreu Hiroshima a uma velocidade mais ou menos de 1.000 km/h. Acompanhada da bola de fogo, 100 vezes mais luminosa que o sol, um espetáculo patético sob o clarão da insensatez. Salve a inteligência humana e sua estúpida capacidade de autodestruição em nome do poder, da glória e da paz.

            Robert Oppenheimer, afirmou “tornei-me a morte, destruidor de mundos”, grande cientista estadunidense, conhecido como o “pai da bomba atômica”. Demonstrou ao mundo a capacidade inequívoca  para o massacre e a destruição em massa, pela glória dos vencedores e a catástrofe dos povos subjugados. “Se  matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”, declarou o genial Charlie Chaplin.

           A intensidade do impacto e o calor humano produzido pela racionalidade, muitas vítimas foram tragadas instantaneamente, evaporaram-se. Outras, calcinadas, dependendo do raio que se encontravam do epicentro da bomba. Estava rascunhado o tenebroso roteiro de um clássico filme de terror na terra do sol nascente. Zumbis-humanos, descarnando vivos, derretendo como cera aquecida, qualhando o rio Ota-gawa de corpos cinzentos e mutilados. Centenas, milhares de pessoas, pais, filhos, irmãos, todos igualmente vítimas da mesma dor, dilacerados pela covardia do inimigo e a honra da guerra, desesperados entre feridas cálidas e dolorosas, numa tentativa derradeira, do bálsamo e de delírio, mergulhavam nas águas turvas de sangue e indignação, em um abraço de afogados.

           Não bastasse o martírio dos mortos-vivos, ainda foram agraciados por uma chuva negra, ácida, manchando a terra com o legado cancerígeno, cadáveres inocentes e insepultos, vítimas da brutalidade dos heróis e do terror atômico.

           Após três dias da explícita demonstração da capacidade da maldade humana, discutido em Hobbes, “o homem é o lobo do homem” em Hiroshima, foi a vez de outra cidade japonesa, Nagazaqui. Foi escarrada a também mortal “Fat Man”, recheada de Plutônio – 239, resultando em outro cenário catastrófico, assistido com perplexidade, pela segunda vez. A contabilidade funesta do genocídio oficial, sob aplausos de nobres soberanos e seus comparsas, foram em torno de  200 mil mortos – 120 mil em Hiroshima e 80 mil em Nagazaqui -, além é claro, dos que morrem até hoje, vítimas de doenças congênitas, herança maldita dos que sobreviveram à hecatombe nuclear, que foram contaminados com exposição à radiação dos ataques.

          A barbárie em nome da paz, da democracia padrão Tio Sam e da rendição incondicional japonesa. Que silenciou com armas nucleares e insanas, crianças, idosos, mulheres e inocentes. Que pagaram com sangue e torpor, a demência dos “mocinhos” da América e salvadores do mundo, cumprindo a missão divina de dominar – o Destino Manifesto -, a serviço da vingança com nome de justiça e da covardia, com status de glória, ovacionados pelos homens de bem!

          Que a História, continue nos ensinando as penosas lições, fruto das consequências de suas ações, reflexões e o árduo labor das transformações. O passado imutável e latente instrui e mantém viva a memória crítica, que constrói uma realidade revolucionária. Mudar o presente significa a possibilidade de um futuro ainda que incerto um pouco mais esperançoso e pacífico. Como na mitológica Fênix, o povo japonês buscou nas cinzas o que o fogo queimou, reconstruindo um Japão ainda mais grandioso, admirável e inspirador.

           Que o mundo jamais esqueça as guerras, a intolerância e a barbárie humana, para que cultivemos a paz, a tolerância e a convivência pacífica. Lembrar, refletir e reverenciar as vítimas de Hiroshima e Nagazaqui, bem como, as dos 11 de setembro de 1973 e 2001; Afeganistão; Iraque; Síria; Ruanda; Vietnã e todas aquelas, conhecidas ou anônimas, juntas na mesma vala comum da indigência e da amnésia histórica. Como se gritassem: “nós que aqui estamos por vós esperamos”.

           Portanto,  historicamente, “na luta do bem contra o mal, é o povo que morre”, afirmou Eduardo Galeano.

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Historiador e Pedagogo. Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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Marcos Manoel Ferreira - Opinião Pública

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). [email protected], www.vozesdasenzala.blogspot.com.br

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