Especial com Marcos Manoel – A CORRUPÇÃO E SEUS TENTÁCULOS

Falar das virtudes de quem quer que seja, verdadeira ou não, sempre foi mais fácil. Uma espécie de paradoxo do cotidiano, que ser sincero tornou-se ofensa! Dizer o que todo mundo quer ouvir é fácil e doce, ventila poesia, ainda que não seja genuíno! Isso se evidencia quando vem a óbito um canalha, que se redime e vira lenda, não bandido! “O mundo estaria salvo se os homens de bem tivessem a mesma ousadia dos canalhas”, afirmou Nelson Rodrigues.

            A corrupção no seu mais amplo e profundo sentido lato corresponde à decomposição das relações humanas, manifestando-se como endemia nacional. Percebo a necessidade de uma reflexão maior e mais séria sobre esta questão.  A desonestidade e a imoralidade política, que permeia todos os setores da sociedade e desnuda o quanto princípios éticos do certo ou errado, tem sido uma linha tênue! “Nosso caráter é o resultado da nossa conduta” afirmou o grande filósofo grego Aristóteles.

            No Brasil, “jeitinho” é hábito. Quem tem ética parece anormal! Segundo a ONG anticorrupção Transparência Internacional, numa avaliação entre 176 países, estamos em 79º. no nível de percepção de corrupção. O que indiscutivelmente, fomenta o surgimento de governos populistas, vociferando políticas retrógadas, ignorando o avanço do abismo social e a exclusão sempre invisível aos olhos do Estado.

             Discutir e refletir sobre esse mal enraizado nas relações pessoais e institucionais, requer acima de tudo coragem e atitude, principalmente sob a égide de uma sociedade falso moralista, hipócrita, camuflada sob discursos conservadores e religiosos. Sobrepondo ao Estado laico e colocando em xeque a frágil democracia brasileira. De liberdades vigiadas e repressões silenciosas, veladas, que colocam a liberdade de expressão e o debate sobre grandes assuntos sob ameaças constantes. “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”, como disse Jô Soares.

             Chegamos num nível de mentalidade – ou falta – tão preocupante, que para muitos, a corrupção, a trapaça tem se tornado algo “aceitável” e “normal”! Indiscutivelmente, uma vergonhosa inversão de valores que fomenta a cultura nacional.

             Quantas pessoas reiteram de modo explícito e categórico que “todo político é ladrão”? E desde quando for ladrão é normal e aceitável? Às vezes tenho a sensação, que há certo “conformismo”, “aceitação”, resiliência social na alegação. Será mesmo? O que será pior e mais vergonhoso, a corrupção ou a impunidade? E aquela máxima popular de “quem não é corrupto, quando for eleito, tornar-se-á”! Precisamos rever esses conceitos. Não podemos perpetuar a ideia do errado, ser o certo e a nítida sensação, que ser ético nos constrange! A histórica cultura da “esperteza”, da “malandragem”, levar vantagem em tudo, é muito diferente de ser honesto. Ser corrupto, ordinário e desonesto, distancia-nos de uma sociedade mais justa e igualitária.

              Entendo que em todos os segmentos da sociedade, possuem pessoas honestas, de conduta íntegra, bem como aquelas desprovidas de qualquer brio ou caráter. Indivíduos competentes e confiáveis, bem intencionadas, comprometidos e idealistas, como também, os incompetentes, de moral duvidosa, sórdida. Seja político, jogador de futebol, militar, professor, escritor, pastor, padre, bispo católico, bispo evangélico, médium, ateu, à toa, empreiteiro, empresário, banqueiro, famoso ou anônimo, a corrupção é desvio de caráter, crime covarde, vil, que não tem “cara” ou culpa; já o resultado, nota-se em cada analfabeto deste país; na qualidade da educação; na insegurança da segurança pública, na constrangedora e sempre duvidosa, saúde estatal e suas frágeis e patéticas instituições. Nas promíscuas e íntimas relações entre o público e o privado!

               A ideia deste artigo, fruto da indignação – que é o que me move – e dos absurdos quase inacreditáveis deste país, precisam ser vistos e entendidos, como muito além da crítica, da provocação ou de uma “caça as bruxas”, como alguns “ofendidinhos” se sentirão. Até porque, já dizia Rui Barbosa, “não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.” E como são longevos!

               A proposta é um convite a reflexão filosófica, histórica, moral e política um pouco mais aprofundada. Um despertar para algo que nos parece, infelizmente, familiar e “natural”. Quem sabe, um despertar desse estado de letargia em que se encontra a sociedade, de cidadãos mais conscientes e críticos, intolerantes à desonestidade, que precisam ter clareza e a certeza, que corrupção não é exclusividade de classe política ou qualquer outra categoria profissional.  Um espectro intrínseco nas nossas relações diárias e inerente à condição de indivíduos involuídos e velhacos!

                O desvirtuamento se manifesta nas mais singelas e “ingênuas” atitudes do nosso dia-a-dia. Como “oferecer” um trocado ao policial como compensação por uma “gentileza”, por um “quebra-galho”.  Aquele que suborna é tão corrupto e infame, quanto o que aceita o suborno! O estúpido que vive dando carteirada por ser autoridade – e ainda se apresenta com a clássica e ordinária pergunta: “você sabe com quem está falando”? Isso quando o infeliz, não é um amigo do amigo de uma autoridade, típico do ranço provinciano que nos pariu, nas raízes malditas e vergonhosas do tão antigo e tão atual coronelismo!

                  Pode até parecer cultural e “legal”, mas é imoral. Aquela “insignificante” e ingênua cola na escola – que o delituoso de forma patética ainda ironicamente, típico dos apodrecidos -, diz: “quem não cola, não sai da escola!” – não é lindo? Para muita gente, isto é normal! É aí que está o problema. O que fura a fila da cantina, do banco, do estádio, do cinema; que transgride as leis e alguns princípios básicos da boa convivência. Que direta ou indiretamente sempre prejudica alguém; o “jeitinho brasileiro”, como os recibos forjados por grandes “profissionais imaculados” para enganar o Imposto de Renda na hora da Declaração. Ou seja, estão todos no mesmo time de detestáveis, que arrebentam com a Nação, comprometem o presente e ameaçam o já cada vez mais incerto futuro.

              Barão de Montesquieu afirmou, que “a corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.” Portanto, de nada adianta ir para as ruas com cartazes e palavras de ordem criticando a corrupção, os “mensaleiros”, o “petrolão”, por exemplo, se na primeira oportunidade, o indivíduo tropeça e ignoram princípios, valores elementares e básicos, mesmo sabendo da ilegalidade do seu ato. O constrangedor nepotismo, disfarçado de legalidade e competência. Ou seja, de nada valerá as ferrenhas críticas à corrupção dos outros, se no “nosso” dia a dia, sempre “estamos” tentando ludibriar ou passar alguém para trás. Ainda que seja, enganar-se a si mesmo!

            Dessa maneira, percebo a necessidade de repensarmos nossas atitudes e reavaliarmos princípios éticos básicos, tanto em âmbito privado, como, público. O Brasil é um país gigantesco por natureza, povo trabalhador por excelência, sofredor e vítima da famigerada prevaricação e a incompetência de quem governa e avalizados por alguns cúmplices eleitores.

            Ainda que sombrio e difícil no atual Brasil submarino, é preciso mantermos otimistas e esperançosos por uma grande transformação, que fará da cegueira, da parvoíce triunfante, o caminho alicerçado na esperança e em cidadãos conscientes, críticos e intolerantes ao caos. Usufruindo daquilo que nos aguarda num horizonte ainda incerto, que é o verdadeiro exercício do respeito ao próximo, ao erário público, na construção da verdadeira cidadania. Que ainda tem sido um direito distante, restrito e negado a muitos humildes e anônimos brasileiros, que constroem o patrimônio dos “honoráveis bandidos”, convictos da impunidade das leis e da miopia dos “deuses terrenos” desta republiqueta de bananas e patentes. Em palácios, paraísos fiscais ou presídios, chefiados por quadrilhas de gângsteres, fazendo inveja a qualquer organização criminosa – Yardies, Yakuza, Cosa Nostra.

               Portanto, caros leitores, acredito ser a educação – doméstica, escolar – a arte, o debate de ideias, o contraditório, a leitura, a reflexão, seria o caminho mais próximo, para repensarmos nossos valores e princípios morais, éticos e filosóficos. Na incansável luta pela transformação e a construção de uma sociedade mais fraterna e honesta. Reconhecendo-nos dentro do processo histórico, no qual, estamos todos inseridos e convictos de que somos nós, os únicos responsáveis por nosso destino e por um mundo melhor, ou não.

Especial com Marcos Manoel – A CORRUPÇÃO E SEUS TENTÁCULOS
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Marcos Manoel Ferreira - Opinião Pública

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduando (Especialização) em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). [email protected], www.vozesdasenzala.blogspot.com.br

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