Em uma tarde chuvosa.  Relâmpagos e trovões, nuvens negras no céu, os animais escondiam-se da chuva e os pássaros não apareceram por conta de tanta água. Eu, com meus pais Alípio e Zulmira, e os irmãos, Vicente, Rubens, Anísio, Norberto e Nilton, acabara de chegar de mudança na fazenda São João Batista de propriedade do senhor João, no município de Inhumas, estado de Goiás. Todos estavam muito felizes com a nova morada, sem imaginar a cilada que nossa família estava para enfrentar. Uma longa história começou no instante em que colocamos os pés naquela terra. A casa era mal-assombrada e o dono nada tinha adiantado, já que ninguém se atreveria a morar naquela fazenda por mais de um mês. Quantas famílias chegavam e logo pela manhã colocavam a mudança novamente no caminhão e saiam deste maldito solo assombrado. Assim que o caminhão chegou em frente à casa antiga muito grande com muitos quartos, assoalho de madeira, portas que abriam dos dois lados, telhado com telhas de barro, chaminés altas e um solo frio como esses que ficam minando água. Uma bica d’água logo na entrada saudava com encanto as pessoas que chegava ao local. Um homem que morava na vizinhança chegou perto do caminhão e falou sem receio: “Vocês sabem que está casa é mal-assombrada? Até hoje ninguém morou mais de um mês nela!”. Ouvimos do homem simples, toda a história e ninguém abriu a boca. Todos em silêncio, com esperança de que tudo não passasse de um comentário maldoso, já que as circunstâncias para nós, naquela época, não eram das melhores. Não tínhamos como sair correndo por conta de assombrações, em razão de não ter onde morar. Entretanto, passo a contar com detalhes o que aconteceu desde a primeira noite. Alias, foi maravilhosa a primeira noite. Nada de assombração. Meu irmão, Norberto, comentou logo pela manhã, quando estávamos todos reunidos no café da manhã: “Ainda bem que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto daquele vizinho. Eu estava morrendo de medo, quase não dormi”. Em minha primeira caminhada próximo do casarão, eu tinha 7  anos, e contemplava aquele lugar tão bonito, com uma pastagem rasteiras, árvores frondosas onde os pássaros cantavam. Eu estava muito feliz, mas para minha surpresa, vivi uma cena que até hoje fico arrepiado ao relembrar. Vi uma botina, e chutei como faz toda criança quando vê algo pela frente, entretanto, aquela maldita botina não saiu do lugar. Voltei. E pegando-a com a mão, percebi ao puxar que tinha um pé dentro da botina, por isso ela não tinha saído do chão. É que mataram um homem e enterraram-no ali, deixando a botina do pobre fora da terra. Era comum, nesta região, os acertos de contas, homens que faziam a justiça com as  própria mãos.  A fazenda ficou assombrada por conta de tanta maldade provocada por pessoas ruins. Um dos casos mais escabrosos contados neste lugar é o do pai do antigo dono que assassinou um trabalhador, colocou-o em uma tora de madeira com os pés para a serra, serrando o homem vivo até a morte. Ele gritava muito, pois a cabeça foi à parte final onde a serra atingiu. Essa serraria funcionava toda noite, sem que nada fosse serrado, eram os espíritos maltratados pelos antigos donos. Eles permaneciam presos àquele império de tormento, que aniquilava suas almas.   Em uma das noites na casa mal-assombrada, as pancadas em portas e janelas fizeram meu pai perder a paciência. Ele que era filho de Italiano, sempre rígido com os afazeres, cansado do dia de trabalho no campo, tentava dormir e era impedido pelas batidas em janelas e portas. Aborrecido, ele pegou um martelo e dizia: “Bate daí que eu bato daqui, seus desgraçados!”, e batia na janela da cozinha. Nesta hora, minha mãe tão sábia, falou: “Alípio, não faça isso! Não adianta! Temos que fazer preces, pedindo ao Pai Celestial que dê proteção e amparo a eles”. Neste momento, a família se reuniu em oração em volta de uma mesa. Tudo foi silenciando e reinou a paz no ambiente. Um dia, meus pais viajaram e deixaram meu irmão Anízio, responsável pela casa. Ele era muito metido e logo se lembrou de uma espingarda que tinha em casa, colocou-a próximo à cama dele e falou: “Caso entre um ladrão, eu darei um tiro nele”. Todos os outros irmãos dormiam silenciosamente, ele também. Tarde da noite, ele ouviu um barulho na porta de entrada. A porta abriu e algo começou a entrar, arrastando o arreio fazendo barulho da espora no piso de madeira e a capa arrastando pelo chão. Quando este “algo” passou pela primeira sala, meu irmão ficou atento, pegou a espingarda e pensou: “Quando ele abrir as duas portas (que ficava na segunda sala), eu pulo no corredor e atiro nele”, e assim o fez. Mas pra sua surpresa, não tinha ninguém. Logo percebeu que se tratava das assombrações. Os cabelos arrepiaram, quase chegando ao telhado. Correndo, ele pulou em sua cama e puxou o cobertor cobrindo até a cabeça.

Um dos fatos mais marcante que ocorreu nesta casa foi o nascimento da minha linda irmã Maria Madalena. Eu era passem dela. Imagine um verdadeiro peralta, cuidando de uma linda menina! Um belo dia, eu a balançava em um cesto feito de bambu, naquela euforia de criança em sempre balançar mais alto. Em determinado momento, ela ia caindo do cesto de cabeça para baixo. Minha mãe chegou para ver essa cena e gritou: “Cuidado!” Eu a peguei pelos pés, não a deixando cair. Em determinada ocasião, eu estava sozinho na velha mansão e decidi acender o fogo do fogão a lenha, para fazer um melado caseiro. Coloquei querosene e comecei a soprar quando de repente, houve uma explosão, queimando todos os pelos que protegem o olho e a pele. Após a queimadura, comecei a correr em volta da casa, subia e descia de um pé de manga muito alto que tinha no quintal. Minha mãe vendo aquela cena, falou com meu pai. “Aconteceu algo com o João Areis!”. Meu pai disse: “Já vem você, Zulmira, com as suas premunições!”. E ela respondeu: “Não é premunição Alípio. Quer ver? Vem cá João Areis!”. Para chegar até eles, dei uma volta maior para não passar perto do meu pai, pois ele era muito bravo. Ela disse: “Tá vendo! Olha bem nos olhos dele e diga se é premunição!”. E eu não tinha nem um cabelinho de proteção dos olhos.

Os primeiros três anos foram complicados, mas com as preces costumeiras em volta da mesa, foi dando resultado e acho que os irmãos espíritos que assombravam a casa foram redimidos e encontraram a Paz. Até hoje tenho saudade daquela fazenda que aprendi a amar.

João Areis Preda

Jornalista, escritor e poeta

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Especial com João Areis Preda – A casa mal-assombrada
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