Especial com Alcivando Lima – UM PAÍS NUM CARRO DE BOI

“De olho por olho e dente por dente, o mundo acabará cego e sem dentes” (Mahatma Gandhi)

Era uma vez um país dentro dum Carro de Boi. Assim o amigo James Neves, engenheiro-corretor, iniciou o sonho após um árduo dia de cata ao leite da subsistência. O país no carro de boi era protegido dos ventos da corrupção por uma esteira de taquara e esta amparada pelos fueiros encravados ao longo da cheda. O carro, pelo peso dos jacás de milho e de outros mantimentos, cantava uma dolente melodia gerando uma modorra nas treze juntas que puxavam o carro e mais uma à frente da guia que, fazendo as contas, totaliza vinte e sete bois. Ele, o sonhador, achou esquisitos os bois que puxavam o carro que só tinham forma de bois, mas eram gentes, milhões de gentes dentro duma carcaça de boi e o carreiro e candeeiro e mais auxiliares nem gente eram, eram ratos, milhares de ratos espalhados pela cheda, fueiros, meões, chumaços, cocões, eixo, nos cambões, nas cangas, nos ajoujos, nas argolas, nos aros, nas arreias, nas braçadeiras, nas brochas, no cabeçalho, na cabongueira, nas cambotas, canzis, cavilhas, chaveias, por debaixo da mesa, nas rodas, nas tiradeiras, no recavem, no argolão e até nos cravos tinha ratos assentados.

No seu pesadelo, uma voz amiga sussurrou-lhe que a rataiada tinha presidente disso e daquilo e estavam se pegando pra ver quem mandava mais naquele país chafurdado na mixórdia. Então, se reuniram para deliberar uma forma de acabar com a promiscuidade reinante. Estruturaram agremiações e lhes nominaram partido disso e partido daquilo, onde cada facção escolhia seus líderes com poderes e deveres, ressaltando, porém, que um não podia nem pensar em meter o nariz no poder do outro. Quando a carga de mantimentos diminuía, o carreiro-presidente, numa voz gutural regogava ôôaa chitão, os bois estancavam e o candeeiro-presidente chispava para ordenar que cada carcaça liberasse suas gentes para lavourar, ralar e de novo lavourar para entupir o carro de mantimentos e deixar umas migalhas para as gentes das carcaças não morrerem de fome, tudo isto sob a vigilância do presidente-fiscal. Isso feito retoma-se a marcha e de novo para tudo devido as brigas dos chefões com dedadas no zói, pescoções e chutes nas partes pudendas. Para amenizar as rusgas e um não masgaiar os outros na unha, reúnem-se em lautos jantares, elogiam-se mutuamente e propagam que vão fazer isso, fazer aquilo e fazer aquiloutro. Mas assim que o carreiro-presidente manda os bois aluírem o carro, o candeeiro-presidente da um jeito de colocar uma pedra desse tamanho na frente da roda e logo é-vem o fiscal-presidente falar que a mãe do candeeiro véve na zona e o candeeiro retruca de lá que isso é rédiculo e que as digníssimas progenitoras do fiscal e do carreiro são useiras e vezeiras na treta de atrair e seduzir viajantes com o canto da sereia.

E o sonho-pesadelo continua. Quando se sente que as coisas tomarão um rumo adequado, a monotonia e a apatia lançam uma penumbra lúgubre sobre o carro de boi e uma profunda frustração abarca todos e os ratos confabulam que agora a coisa vai, mas eles, para não perderem o poder de mando, preferem que tudo fique como está e cada um fuzila o outro com um olhar de secar pimenteira enquanto roem a carga do país no carro de boi.

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