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Especial com Alcivando Lima – TOQUE RETAL

“Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da constituição por: Artigo 1º: Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara; Art.2º Revogam-se as disposições em contrário” - Capistrano de Abreu – 1853-1924

Quando um olhava na cara do outro, via que estava beiçudo na ante-sala do consultório do urologista, aguardando a vez da chamada. Ninguém sorriu duma piada sem graça que um contou sobre a posição de frango assado que um machão tem que adotar ao fazer o exame prostático, nomeadamente toque retal. Sisudos, alguns levantaram para tomar ar fresco e avistaram um céu que não anunciava céu de brigadeiro. Umas nuvens negras flutuavam desordenadamente, prenunciando temporal com ventania braba. Voltaram olhando de relance na tentativa de captar algo que amainasse o medo ancestral de levar a dedada e o alívio chegou na estampa elegante e serelepe de um bem apessoado, manifestando de cara, intensa alegria em receber tal toque e se saracoteou com uns remelexos de quadris e ombros iguaiszinhos aos de Ney Matogrosso cantando Homem com Agá. Repetiu a fala do médico sobre o teste de PSA, enfatizando que só esse exame não basta, por ele não “falar” se o cabra tem um tumor e o tira-prosa mesmo é o toque, onde a sensibilidade do dedo e a competência do médico captam a rugosidade de um tumor que o PSA não consegue, tá me entendendo? — Pergunta de chofre prum baixotinho que era a cara do marechal Castelo Branco e o pitititico responde com um lacônico “não!” Se, — retoma a fala o bem falante qualquer coisa, não dando a mínima para o enfezamento do baixote — o médico achar que o dedo topou com alguma rebarba, aí deve fazer um ou mais biopses. Se dever, a secretária marca o dia e hora de se retirar uns pedaçinhos da dita cuja, e o senhor pode vestir as cuecas e as calças, ordena o médico, mais sério que cachorro embarcado na canoa e te dá um monte de papel pra tu limpar o toba breiado dum gel incolor, inodoro, insípido e melequento que ele usou pra lubrificar o dedo enluvado do tamanho da estrovenga dum jegue. Ôôô vida! — Exclama o chegante alegre num tom de trombeta e, rufando os tambores, repete o “ôôô” com um sorriso maroto, junto de um olhar astucioso em cada um de nós e sapeca, estridente: — Meus amigos, é chegada a hora da onça beber água, com a secretária perguntando se quer anestesista. Se quiser é mais tanto, podendo ser pago em dinheiro ou cartão. Muito machão pergunta se dói e a enfermeira, como uma professora consolando seu pupilo, aperta suavemente seu queixo e com um olhar meigo te lança um poderoso feitiço entorpecedor, ao tempo que diz coisas enlouquecedoramente inverossímeis: — Não meu amor, num dói nadica de nada, é só uma beliscadinha à toa viu? — E tu, embriagado pelo canto da sereia, calças as esporas e vai na raça e no seco e o doutor te pega, como se pega um frango que vai se assar, e sem um pingo de dó, enfia um ferro desse tamanho e garra a picotar a próstata do cangaceiro com uma espécie de alicate cego, mas educadamente, lhe perguntando —- o sádico — se está tudo bem, se pode continuar e coisa e tal, e tu,  de voz fininha, autoriza-o a ir em frente, nem percebendo que uma grossa e solitária lágrima está rolando pela sua face suarenta.

Finalmente, a maritaca percebeu que ninguém gostou do grotesco pronunciado, mas ele não se deu por vencido e, como se muda de camisa, mudou de tema, passando a falar mal do governo, enumerando uma série de barbáries cometidas e repetiu uma divulgação do Banco Mundial, onde mostra o número de horas que cada habitante tem de trabalhar para pagar impostos e, é claro, o Brasil encabeçando a lista. Em ordem crescente de dez países, o Brasil, ocupa o 1º primeiro lugar com o trabalhador ralando por 2.600 horas (mais que o dobro do 2º colocado) que é a Bolívia com 1.080 horas e o 10º é a Ucrania com 657 horas. Ele, o falador elegante, foi interrompido pela chamada do próximo para adentrar no matadouro, retomando a fala em menos de 30 segundos. Desta vez sua voz não demonstrava alegria e nem gesticulava com o ardor de antes e seu olhar era de profunda desesperança. Correndo uns olhos tristes em cada um de nós esse olhar implorava explicação da malfadada ação desse desgoverno prestigiando funcionários públicos que agem como um personagem Kafkiano ao inventar uma máquina para torturar condenados. Essas ações — acentua ele — provocaram a ira dos caminhoneiros e a felicidade dos jagunços e dos empresários que pararam o país, causando o desabastecimento contínuo de tudo, no que ensejou os vendilhões do templo a vender mercadorias a preços exorbitantes, com os proxenetas espalhando boatos de um novo bloqueio de barrar passagem até uma muriçoca. Esse desgoverno, por estupidez, esquece que toda ação governamental tem que ser para melhorar a vida das pessoas e não o contrário. Esse desgoverno vem realizando o toque retal no povo, usando como retossigmoidoscópio, um caroquento e grosso pau de mandioca. Só um mentecapto mata a vaca para acabar com os carrapatos. Provou que roubaram? Não precisa nem prender, é só tomar tudo de volta que as coisas voltam ao seu lugar. O poderoso chefão não tem uma irmãzinha birrenta com o dedinho em riste a falar-lhe: Vou contar tudo pra mamãe o que você anda fazendo com o povo, viu? O aumento de preço dos combustíveis e de tudo, é cobrado antes mesmo de ser autorizado e quando se é para baixar tem mil contas e transposição de mil leis ditas pelos bonifrates e demais “çabios” explicado num juridiquês e economês que nem o cão entende e o desconto não chega às prateleira e às bombas. Que vá pros quintozinfernos os exploradores nacionais e internacionais com a queda tardia desse parente do coisa ruim e que esse desgoverno ajunte sua cambulha e vá junto. — Assim, nosso donairoso chegante desabafou, e se deixou cair numa poltrona, implorando por um copo d’água.

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