Especial com Alcivando Lima – SOCORRO SENHORA DOS AFLITOS

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”. William Shakespeare

Faça sol, ou caia chuva ou o dia é soturno, o office-boy, a secretária ou mesmo você, tem que ir a uma agência lotérica para quitar obrigações e lá chegando depara-se com uma fila de oitocentos sofredores e dentre eles, jovens, velhos, mulheres amamentando suas crias com outras agarradas à sua saia e mais uma na barriga pispiando chegar a qualquer momento, cadeirantes e demais gentes que olhando de perto ainda parecem normais. Tu abandonas aquela muvuca e dirige-se a uma agência bancária. Para seu desespero, constata-se que lá a fila é ainda maior nos caixas eletrônicos e então resolve abrir uma conta corrente para se debitar todas essas obrigações pecuniárias. Saca uma senha e após quarenta minutos consegues ser recebido por um funcionário atencioso que lhe aconselha a comprar este ou aquele plano de capitalização e, consultando seu CPF, averigua-se que seu nome ta mais sujo que poleiro de pato e tu retruca que não deve nada pra filho da mãe nenhum e ele, o funcionário, contra-argumenta que a burocracia é a mãe da estupidez e tu, para provar que nada deves, lembras do Martinho da Vila e cantarola: vai penar um bocado, um bom bocado, vai penar um bom bocado. Reclamar não basta ou basta até se enfurecer e reclamar pra mãe Joana, na casa dela ou na do Barbalho. Furibundo e profusamente tosco, sai desnorteado do banco e quase é masgaiado por uma camionetona desembestada, cuja buzinada eriçou-lhe os pelos do lombo pela guinchada dos pneus da potentíssima máquina queimando no asfalto. Ainda meio zoró, contas até 10 e sobe pra 100 para não tacar fogo naquela papelada infernal que só as lotéricas ou caixas eletrônicos recebem. Então, cavouca a memória pra ver se tem outra agência e certifica desalentado que existe tão somente esta para atender milhares de pagantes dos (maus) serviços da multinacional de energia, da estatal dos serviços de água e esgoto e carnês outros. Então, fica-se andando por entre motos, carros, bicicletas e barracas de camelôs e terra ressequida e esboroada e mesmo assim se ouve o canto dos pássaros abafados pelo baticum das máquinas, das buzinadas retinindo e atufando os ouvidos, pelas freadas escandalosas e bramidos dos motoristas enfurecidos e nesse burburinho nos dirigimos às câmeras de tortura, astuciosamente instaladas em cubículos à feição de saunas, e qual um camaleão nos mimetizamos ao meio ambiente. Só de pensar em enfrentar uma quilométrica fila, meu corpo sente que dormiu sobre urtigas e minhas juntas começam a fazer créééck ao me sentar e levantar, prenunciando que ficarei em pé por cerca de 1 hora ou mais, suportando um calor de 40º com todos suando as bicas. Quando se vai inaugurar uma nova agência, os donos, sofregamente, montam uma estrutura com bancos estofados, ar condicionado e tudo cheirando a jasmim e lavanda para impressionar e deixar um nome “bão”, um cadastro limpinho para deleite das autoridades que cortarão a fita e logo depois, para aumentar o lucro, corta-se essas despesas e a coisa vira um caldeirão do diabo a cozinhar nossos miolos. Para amenizar um pouco as agruras sem vislumbre de uma autoridade para por cobro a essa aviltação e abrir dezenas de pontos para receber contas e tais, ofereço a você, formosa leitora e gentil leitor, as Santas palavras de Nossa senhora dos Aflitos, copiadas dum site na internet: Lembrai-vos, ó Doce Mãe, Senhora dos aflitos, que nos fostes dada por Jesus para nosso amparo e proteção! Cheios de confiança na Vossa bondade nós imploramos o Vosso auxílio. Socorrei a mim e aqueles pelos quais eu rezo”.

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