Especial com Alcivando Lima – QUERO SER RICO

“Perigoso é aquele que não tem nada a perder.” Johann Wolfgang Von Goethe

Estava a bestar ali na quadra que compreende Praça do Bandeirante, Avenida Anhanguera, Rua 7, Rua 3 e Avenida Goiás, parando junto às bancas de revistas para ler as manchetes de jornais daqui e de São Paulo e uma delas me fez matutar sobre a discrepância em que vivem os brasileiros ricos e pobres. Nada tenho nada contra a riqueza. Sou contra a pobreza! Exclamou um outro que, junto de mim, também lia  as manchetes e eu, com jeito de boi sonso, lhe perguntei: — Quê que foi, que ta roendo os ricos no dente, sô? — E ele soltando fumaça pelas ventas, seguiu: — Conheço muita gente que era um Zé Ruela que vivia matando cachorro a grito e elegeu-se deputado e outros a senadores e hoje estão podres de ricos à custa de quem? Do Zé Mané igual a mim, igual ao senhor. — Falou me olhando rápido para se certificar da minha qualidade de pobre e vaticinou pra si mesmo: — Pé rapado! Sapatos empoeirados, calças de brim na cor de burro fugido, camisa com colarinho puído de tanto ir ao batedor, cinto esfolado, meias de camelô com tudo que é elástico esbeiçando pra fora. — Veja aqui, retomou ele, enjerizado e firmando os óculos com um elástico encardido, apontando com o indicador uma manchete em letras garrafais. Depois de muito ranrannrarrrnnn para expulsar o diacho dum pigarro, leu em voz alta: Personalizado e high tech, mercado de hospitais de luxo cresce em São Paulo. — Falou e percorreu a roda com o mesmo olhar perscrutador: A crise, — Voltou a pigarrear rasqueando com força o ranrannrarrrnnn e até deu uns pulicos para ajudar a desobstruir a traquéia, laringe ou sei lá o quê e continuou lendo: A crise, que fez muitos brasileiros perderem o plano de saúde não afetou o mercado dos hospitais privados do segmento Premium. Em um mês, São Paulo ganhou dois novos centros médicos voltados para esse público: o Vila Nova Star, no Itaim-Bibi, e o Samaritano Paulista, na Bela Vista. São hospitais aliados à hotelaria de luxo e a um serviço personalizado com tecnologia até então inexistentes no Brasil. O Vila Nova Star tem quartos de até 60 metros quadrados, cardápio assinado pelo renomado chef francês Roland Vilard com pratos como linguado ao curry e parmentier de Pato e o paciente tem à sua disposição um tablet para que ele possa fazer videochamadas para o posto de enfermagem e controlar persianas, iluminação, temperatura e TV de 65 polegadas, — tudo isso pra gente rica, deputados e senadores.

Vocês ouviram que a coisa não é brincadeira não! — Falou e enrolou o elástico encardido nos óculos para logo após cair num mutismo medonho e começou a nos olhar de forma esquisita, um olhar de galinha que viu cobra e falou grosso: — Negrada, tive uma idéia supimpa. Vou marcar uma audiência com os governantes e falar pra eles tirarem o povão das filas do SUS e interná-los nesses hospitais chiques. Vamos fazer São Paulo ficar mortim de inveja ao ver que o nosso chique é mais chique que o chique deles. Governador, prefeito e deputados vão pular de alegria e dizer que foi Deus quem mandou você aqui, homem de Deus.  Bastião, você chegou na horinha de cercar o nosso governo  de ir pro ralo! … Viva o Tiãããooo!

A roda raleou rapidinho quando ele começou a caminhar no rumo dumas pedras tapiocanga amontoadinhas na esquina do lado de lá, bem assim num cantinho.

Mostre mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo