Especial com Alcivando Lima – PASTEL NA FEIRA

“Certa gente não deveria falar em liberdade, razão e humanidade, melhor que se abstivesse disso por motivos de decência". Paul Thomas Mann – Escritor Alemão – 1875-1955 – Nobel de Literatura 1929

Tem domingo que largo tudo e vou direto a uma feira, qualquer feira, para observar e aprender coisas da vida ou me abstrair e não dar bola para o que acontece ao meu redor. É gente dando topada uma nas outras, qual formiga comunicando que em tal lugar tem um pernil de grilo desse tamanho e mais pra acolá uma barata tremelica umas lindas e apetitosas perninhas envernizadas. E zanzo pra lá e prá cá. Tem um amontoado de gente? Então me aproximo e, meio que escondido, sento-me num banquinho dobrável, vindo lá de Recife, cidade pequena, porém decente, como bem define a Veneza brasileira, um amigo pernambucano.

Mas, quem vai a uma feira e não comeu um pastel regado à garapa, foi lá à-toa. É lá que a gente morre de vontade de pegar um daqueles retângulos de 25×15 estufado de frango, guéroba e molho disso e daquilo que vem fervendo e tu abocanhas assoprando e abranda a quentura com a garapa espumosa e geladinha que você viu passar e repassar na moenda bem na sua frente. Conjugados, massa, garapa e molhos, você, por desequilíbrio de glicose no sangue é sério candidato a dar entrada num pronto socorro em coma diabético.

Assim que me sento, espicho as pernas, cruzo os braços, aguço os ouvidos e os olhos ficam a perscrutar sentimentos alegres de uns com a firmeza do nosso presidente em meter o pé na bunda de quem lhe enche o saco e a hostilidade de outros afirmando que esse governo é uma usina de crises e nisso o tempo fecha e a atmosfera dispara raios pra tudo quanto é lado e dá-se inicio ao festival de tapas e cusparadas. Ouço obscenidades humorísticas, principalmente aquelas que os homens tem do medo dos medos e da vergonha das vergonhas: Espirrar o taco na hora agá, a malemolência bater e o tico-tico virar geléia e a coitadinha que ficou na mão lhe falar que isso é coisa normal e acontece até com deputado, senador e coisa e tal e, como consolo, lhe oferece uma tirinha de chiclete de hortelã ou de melancia. Porém, isso não amortece nadinha a bagaceira provocada pelo desmoronamento do Obelisco Bendegó. O certo é que o Morubixaba fica sem chão e invoca um pajé e este lhe aparece brandindo uma machadinha de plástico e canta e dança a dança do fogo que mais se assemelha a uma melopéia fúnebre e, num tom gutural, capaz de tremer Mefistófeles, balbucia babento ao seu ouvido: É démodé usar baforadas de fumo macaia para despertar o dizinfiliz. Como tudo no mundo, essa área também se modernizou — continua ele — pajé fez doutorado em Harvard para não errar na respiração boca a boca e não esculhambar a descarga elétrica de 8.000 watts em cada bago. E ao fim e ao cabo, a boazuda, com um olhar esfíngico, joga a última pá de terra sobre o féretro ao começar a roer a unha do polegar, sustém o riso te olhando com o rabo de olho e logo logo se destrambelha em gargalhadas de segurar a barriga. Ôôô diacho!!!

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