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Especial com Alcivando Lima – O JEITO AGORA É PENDURAR AS CHUTEIRAS

“O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.” Clarice Lispector

— Ôôô vida, aiaiai! — Exclamava ele, cansado de ver nulidade prosperar logo após vencer um pleito e nunca mais cessar de enricar. A cada ano duplicava, triplicava suas riquezas. Vencer é modo de falar, todo mundo sabia que à custa de mutretas eles conseguiam o que bem entendessem e passavam a tratar os cofres públicos como inimigos que precisavam ser esvaziados e o faziam com maestria, descarregando tudo em aviões, helicópteros, iates, mansões em Miami, Los Angeles, New York e agora Xangai, Singapura e Dubai.

Rememorava os slogans dos adversários e não achava jeito de encaixar um seu que pusesse os deles no chinelo, um seu que causasse impacto, fácil de decorar, que fisgasse a atenção do eleitor até a hora de depositar o voto. Consultou um monte de cartomantes, pais e mães-de-santo e até experimentou pirografia a laser executados por feiticeiros modernos que saíram do atraso de queimar chifres, sabugos ou bosta de vaca e nada de achar um recurso, um troço qualquer que entontecesse o eleitor para quando chegasse a hora de votar, vipt, digitasse seu número e confirmasse na urna, mas logo desistiu por que o pirógrafo consultado era despirocado de tudo e cobrava uma bufunfa preta para pirografar o destino do consulente e se este não concordasse, o pirogramador rolava no chão batendo queixo feito caititu e corria atrás de mulheres novinhas pra lhes morder coxas e peitos e só parava quando o marido ou namorado cobria o desgraçado de porradas, coisa do cão.

Sempre evitou se misturar com os movimentos sociais, especialmente esses que englobam todos os viventes num só gênero, não separando macho de fêmea. Bate o pé afirmando que até seu lado feminino é sapatão, mas treme de medo de aparecer um antigo colega do Grupo Escolar, contando umas besteirazinhas ocorridas nos tempos em que eles, peladinhos da silva, tomavam banho nos córregos e catavam cajuzinhos no pé da serra, lembra? Então, é mister ter cuidado com o andor que o santo é de barro, certo? Misturou-se tudo e o nosso candidato se sentindo que estava vestindo a camisa de onze varas para ser executado no patíbulo das urnas por falta de algo revolucionário. Tudo o que pensava há séculos está nas ruas, ô diacho, e se sentou num toquinho debaixo duma mangueira na Praça Getúlio Vargas ou João Pessoa, onde, placidamente, pastavam cabras, bois, cavalos, jegues e galinhas e pôs-se a pensar numa expressão concisa que pusesse na rabeira qualquer outra existente no atual cenário. Se não conseguisse desta vez, jurou pendurar as chuteiras e largar mão de mexer com política e quando da fé, uma lampadazinha acendeu uma idéia de mandar fazer um folder mostrando ele distribuindo Pão com Salame, mas logo desanimou, lembrando que lhe falaram que isso de dar comida pra pobre dá é cadeia por querer fisgar o bagre pela barriga. E, vixemaria, nem bem a lâmpadinha apagara, olha um desaforado jegue amuntano na cacunda duma jega que, escandalosamente saiu zurrando mundo afora, desencadeando um efeito dominó com a bicharada toda fazendo da praça o maior bordel da história de todos os tempos que chegou a sair nas TVs do Japão e da Groenlândia com cachorro se engraçando com cachorra, touro com vaca, galo aproveitando-se da galinha que estava com um pé quebrado, coitadinha, bode na maior senvergonhice do mundo, quase matando de vergonha as beatas que se benziam e se descabelavam, os coronéis abrindo umas bocas desse tamanho por ver suas donzelas alegremente incentivando a orgia, as encalhadas rasgando a roupa como se a roupa pegasse fogo e o dono dum buteco, um paraibano muito do arretado, rindo de tudo, invocou o nome dum santo que não tinha prestígio nenhum por que a zorra continuou e a mulher dele, uma gabiruzinha toda zuretadinha saiu pra ver o quê que é isso minhanossasenhora e o marido, muito cioso dos preceitos morais, a empurrou pra dentro com tanta força que, se não fosse a ajuda doutro santo, a mulatinha tinha se esborrachado no chão empedrado, mas ele, o santo, num átimo, conseguiu dar um revestréis  e ela caiu de costas em riba dum saco de farinha e na queda seu vestidinho de chita subiu revelando que ela estava desprevenida e o paraíba, agora incorporado pelo espírito dum cangaceiro, mais do que depressa procurou tapar com um chapéu de palha todo escangalhado, enquanto gritava puta que pariu, hoje eu mato um e, babando feito um queixada, sacou duma peixeira de quatro dedos de lombo e varreu com os olhos a redondeza procurando se um macho, mesmo que fosse touro, galo, jegue, cachorro ou bode tava olhando mode ele estripar na faca, ôôô vida, aiaiai!

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