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ESPECIAL COM ALCIVANDO LIMA: O ESPELHO

ESPECIAL COM ALCIVANDO LIMA: O ESPELHO

“Sentir solidão é não estar só, é estar vazio”. Séneca

Como se fosse a primeira vez, aquele septuagenário viu-se diante do espelho e seu coração pasmou com a decrépita imagem refletida. Incontinenti, olhou para os lados e às duras penas certificou-se que não era outra, senão a sua, a estampa ali fixada.

Pouco a pouco, foi recobrando seu lugar nesse mundo, recordando seus passos numa vida marcada pelas rugas e nódoas senis como marcam as ações geológicas no solo e sua alma sentiu-se como um cinzento e merencório crepúsculo matutino.

A bagaceira que viu estampada no espelho lembrou-lhe que estava longe de proclamar o que Júlio César predisse: Veni, vidi, vici. Ainda com o coração anuviado de preocupações, levou um longo tempo se mirando e rememorando o que ouviu dos presidentes, civis e militares, para economizar nisso e naquilo, inclusive cagar dia sim dia não, e assim o fazendo, gastar-se-á menos papel que, por tabela, diminuirá a derrubada  de árvores. Ouviu deles que agora o petróleo era nosso e do gesto de adeus à dependência de países produtores e sorriu uma risadinha sarcástica ao lembrar que basta o manda-chuva dalgum país ordenar que se crive de balas um alvo qualquer, preferivelmente se esse alvo estiver entupido de gente num lugar que só produz combustível fóssil e não tem um pé de quiabo plantado, para a gasolina e o resto de tudo subir de preço nesse nosso Brasil, sem que nenhuma autoridade possa esboçar um isso para não sacrificar o povo sob pena dos investidores retirarem todo o dinheiro aqui aplicado e nossa economia ir pro beleléu, donde se conclui que presidente ou rei ou sheik não manda nadica de nada, o que fala alto é o mercado, o dinheiro e pronto, ta acabado.

Nessas alturas não soube precisar quanto tempo passara e sua indignação estava, também, nas alturas. Contudo, queria ouvir, dele mesmo, alguma nova que tivesse praticado ou que praticaria, caso Deus permita. Entretanto, veio-lhe à boca um terrível gosto de cabo de guarda-chuva ao recordar que seu restim de vida já passou das seis e caminha, inapelavelmente, para meia noite, fazendo jus ao provérbio quê diz desde que o mundo é mundo, que para cada um que nasce, dois ou três vão morar na cidade dos pés juntos.

Lembrou das promessas que nunca encheram a barriga de ninguém, embora a gente ande a viver delas e, dando as costas ao espelho, murmurou um agradecimento ao Onipotente e Onipresente pelo seu viver até os dias de hoje e quem sabe até amanhã.

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