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Especial com Alcivando Lima – O ELEITOR DEVE COBRAR PROMESSAS?

“Se eleito for prometo investir em saúde, educação, transporte, segurança, moradia, saneamento, prometo acabar com o desemprego, com as injustiças e prometo também parar de mentir.” Kem – cartunista/blogvarzeapaulista.com

Eu pouco vi e pouco ouvi as falas dos candidatos da última eleição que apareceram na telinha prometendo isso e aquilo. As promessas não causaram nenhum impacto na maioria dos eleitores. Também pudera, o candidato quando aparecia na telinha mal tinha tempo pra declinar o nome, CPF, registro geral, endereço, CEP, filiação, nome do vizinho e do cachorro do vizinho, bairro, prédio e região geográfica onde morava e se perder, garanto que ninguém vai saber do seu novo endereço. Contudo, vi e ouvi e creio que você também viu e ouviu promessas das mais variadas matizes e bizarrices de corar santo no altar. Eu vi e ouvi, com esses olhos e essas duas orelhas que a terra vai comer, um ladino dum candidato que prometia acabar com a seca no Ceará, na Bahia, em Pernambuco, Sergipe e Alagoas e também na Paraíba. Do nordeste pulou aqui pra Goiás e daqui voou para Santa Catarina e eis senão quando uma trovoada veio ribombando lá dos lados de Brasília. O manhoso do prometedor agradeceu aos céus pelo estrondo que o salvara por ter ficado sem repertório e o povo ia raleando aos poucos e outro trovejar, agora de arrancar pica-pau do oco, reforçou suas esperanças de prender a atenção da plebe lembrando-se dum zapzap recebido indagorinha e que ele vai imitar, de forma estrambótica, uma porrreta duma linda negra que catava feijão sobre uma mesa e gesticulava espectaculosamente, gastando sua sabedoria em explicar, numa linguagem escorreita, pra não dizer castiça, o porquê que o trovão tem essa vozona grossa. Ajeitando as calças na barriga proeminente e agitando o braço direito, o candidato sapecou: — “Geeennte, vou expricar procêis o porquê que esse bicho urra  feito leão. Esse truvão que a gente vê caindo do céu é por causa que a gente polói a terra e a poloição terrestre sobe em forma de ventinho e capita a luz e aí vem também a poloição galática que é a poloição intergalatical e as duas se choca e no que elas se choca dá uma convulsão e é essa convulsão no céu que fais esse baruião, esse trimidum todo que a gente escuita que se chama truvão, entendeu? — Quando pressentiu que o povo interessou pela sua sapiência em trovões, ele fez o que? Engrossou mais a voz e continuou num frenesi tal que chega escumava o canto da boca e da testa porejava um suor pegajoso que caía numa ruga, daí seguia pra outra que fica perto do começo do nariz e de lá, vupt, descia num vinco que findava em riba da fissura labial e a desgrama da lágrima, engrossada e empurrada por outras que vieram logo atrás, entrava na boca escumada e ele passava a mão suada sobre a língua e o sal e a uréia acendiam uma sede do cão e ele fuzilava com os olhos seu auxiliar meio quarta-feira que não entendeu bulhufas do olhar suplicante de água fresca, mas sentiu que seu discurso empolgava e amarrava a plebe ignara que não sabia nadica de nada de trovão e a sede e o auxiliar que fossem prosquintosdozinfernos e continuou, veemente: — ”Com o baque forte,  — óia que negócio doido  — com os baque forte, as praca tectône se dislói e é por isso que tem muitas estrela no mar! Sabe por que tem muita estrela do mar?… Por que quando as praca tectone se dislói elas balanceia o firmamento e as estrelas não consegue ficar parada e elas cai e no que elas cai num pode ficar parada aqui na terra mode que a umidade da terra é muito baixa e elas vai pra onde? Vai pro fundo do mar e é por isso que o mar ta cheinho de estrelas do mar, visse! … Aprendi isso quando tinha sete anos, tava na quinta série e aprendi na ciência, entendeu? E na terceira série, — óia procê vê carai como eu era supimpa, — na terceira série eu já era suprente da professora da moral física, pode? Se fosse uma prova eu acertava. — E o candidato, num arremate meio dengoso, disse: — O truvão, nada mais é que a reação celestial que o céu tem ao receber dois tipo de poloição, que é a poloição terrestre e a poloição intergalatical e juntando as duas dá essa truvãozada que a gente ta acostumado a vê!… Me entendeu?”

Povo sorrindo pela soberba aula sobre ondas sonoras, mas, como nada é perfeito, muitos acharam que o discurso foi conversa pra boi dormir e aproveitaram para pedir, em troca dos votos, jogos de camisas, meias, chuteiras, calções, sungas e de sobra a construção do muro, alambrado, arquibancada, alojamentos para os times e também para o juiz e bandeirinhas e um ônibus com ar condicionado para a gloriosa esquadra se locomover decentemente e não morrer de vergonha por chegar na casa do adversário carregada num pau-de-arara.

O candidato prometeu.

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