Especial com Alcivando Lima – A PISCADA DA CORUJA

“Erudição é a poeira sacudida de um livro para dentro do crânio vazio” Ambrose Bierce – (Citações e frases famosas)

Sobe o pano e entra em cena os atores do elenco do transporte público. O mais alto e o mais forte dos atores, numa voz dramática, roga ao alcaide o aumento no preço da passagem.

Ótimo! — retruca outro ator, figurando o alcaide — Assim meu povo não será sardinha enlatada e terá o tão esperado conforto com veículos novos, poltronas almofadadas, ar condicionado e serviço de bordo com rodomoças e comissariado de bordo como é nos aviões.

— Certo nobilíssimo alcaide! — sapeca de lá o ator pidão que continua: — Vossa Excelência abre os cambitos, ops, perdão… oh!, divina majestade, como sou desastrado, vossa magnificência abre as possibilidades factíveis e deixa que a gente ajeita o resto, tá me ouvindo? — A expressão do ator galalau é pura matreirice personificada em cifrões despencando dos seus olhos.

O manda-chuva, roufenho de tanto discursar em público, acrescentou, — Certíssimo. Esse ato irá beneficiar grandemente o povo destas plagas que, de tanto sacolejar nessas ximbicas escancheladas, estão com os quartos doendo de tanto sacolejo e com os pés em petição de miséria por serem pisados nessas geringonças, nessas tranqueiras que ostentam pomposo nome de ônibus de transporte coletivo. Espero que os senhores, endinheirados, implementem uma revolucionária maneira de como se deve transportar os trabalhadores, os estudantes, os idosos e demais gentes sem a desgrama da filas, do empura-empurra, todo mundo sentadinho e tratado com polidez e salamaleques. Venham e traduzem para o Brasil e quiçá para o mundo, como se comporta o transporte brasileiro, notadamente o daqui, do nosso torrão. Vou, já já, convocar a imprensa para uma coletiva e dar as alvíssaras de se ter, como nunca se teve, algo decente, digno de um povo educado e que poderá até fazer com que a ministra Theresa May, doidinha de vontade de escafeder-se da união européia, abandone a piçirica daquilo tudo e venha morar aqui com a gente, comer frango com as mãos, extasiar-se com o por do sol em Aruanã e nas noites frias, degustar uma pamonha quentinha e roer piqui ouvindo a maviosidade do passo-preto, da siriema, do sabiá laranjeira e ver os catireiros levantar poeira num sapateado e, lógico, bestar nos nossos lindos e cheirosos coletivos.

— Ó excelsa, etérea e vaporosa Majestade — Volta a cena o histrião varapau — vossa santidade só precisa nos isentar, para todo o sempre, de impostos, taxas e emolumentos, cavoucar e avalizar financiamentos e, claro, construir e reformar plataformas de embarque e desembarque, fazer e refazer asfalto em todas as linhas que acharmos por bem transitar com o direito de recusar aquelas que não quisermos sem nenhuma obrigação de justificativa. Ta ouvindo ou quer que eu repita?

Conhecido por seu curtíssimo pavio, o alcaide rufou seus tambores imaginários, deu um suspiro que evocou medonhas expectativas e num piscar da coruja buraqueira, sentenciou:

— A senhora sua mãe, que há tempos não vejo, vai bem? — Fecha as cortinas!!

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