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Especial com Alcivando Lima – A COLEGUINHA E A ÉGUINHA ESQUIPADEIRA

“O machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo” – (Eduardo Galeano - 1940/2015 – jornalista e escritor uruguaio)

Todas as vezes que passo naquela rua lá esta ele, intemporal, cara encardida, sob a sombra da mangueira a observar o vai e vem das pessoas, catalogando mentalmente tudo ao seu redor. Usa um chapelão preto atolado na cabeça, que imagino calva, andando pra lá e pra cá, cuspinhando o sarro das baforadas dum fumo macaio que, pela catinga, nem muriçocas e nem mosquitinhos de cu de cachorro chegam perto. Indo ou vindo, sinto seus olhos mortiços postados em mim enquanto movimenta o palheiro nos cantos da boca. Cumprimentamo-nos com um bom dia, boa tarde, com ele ciscando a vida da mulher de sicrano, jurando que ela está pulando o cambão e o palhaço do marido nem percebe ou não quer saber ou ta enfeitiçado. Tem muita mandinga esparramada pelo mundo, seu dotô, eu mesmo, — estica ele — conheço muito machão que fica amoitado apreciando um outro encastoá a muié dele! — E remata: “Gente humana é o trem mais elisimático do mundo que põe olho gordo na galinha do vizinho e daí é-vem a gastura de sentir o gostinho doutro tamarino e tardiamente percebe que é tudo igual, só muda o cê-pê-efe, mas a desgrama da cobiça — ô diacho — é água de morro abaixo e fogo de morro arriba, ninguém segura. Eu mesmo sei de muitas que falam pro marido que vai ao médico e no segundo ponto sarta do ônibus e já entra num otomove com o motorista meio que disfarçado numa barba postiça e de lá pinicam a mula prum rendêvu, que é a coisa que mais tem pressas bandas do norte, leste e até do centro-oeste.— Bão! — Prossegue meu interlocutor segurando a barra da minha camisa — o sinhô deve de ter pensado que eu num sabia nadinha de geografia, num é? Pois num tirei o déploma por que me emputecí com uma coleguinha baxotinha que ficava me rufiando e falando: É hoje que eu te macego! E eu nem tchum, e por causa disso, ela increspou comigo e esparramou pro mundo inteiro que eu quis pegar na bunda dela, mas ela zapt, sartou de banda e mais ligeira que o satanais, veio de lá e pá!, me deu um canga-pé no pé-do-ouvido que eu pluft, caí estrebuchando, revirando os zói pra riba e chamando minha mãe! — Ooora siô! — retomou o fuxiqueiro enfezadíssimo com a colega, retorcendo a barra da minha camisa — e eu lá sou homem de sofrer um esbrega  duma muiézinha baxotinha, que não sabe patavina de luita marginal e eu, um macho acostumado a derrubar boi no gilgits?… Óia, — e ele dá um piparote no chapelão que foi parar na nuca surgindo uma escamosa e perembenta careca — tive uma éguinha muita da safadinha de arisca que corria, corria e nunca que me deixava pegar ela. Daí, maquinei uma treta: Vou pro pasto e num vou dar a míni sastifação prela. Esbirrava aqui cheirando uma flô e acolá reparava um pebinha zunhando a terra, e ela de lá, na maior dor de cotovelo, e eu cá, observando com rabo de olho, e ela, mortinha de curiosidade, veio aprochegando, aprochegando e eu vapt, dei o bote garrano no pescoço dela e num relamps preguei uma dentada na sua orêia que a danadinha zurrou igual uma jega estuporada. Daí em diante, eu e ela passamos a ter muita consideração um com outro e muntava nela a hora que bem queria, bastava gungunar um chomp-chomp com uma de cuia de sal numa mão e com a outra encabrestava e ela já saía esquipando na maciota, bonito, bonito!… Ocê num acha que, se eu quisesse, num tinha feito o mesmo com aquela éguinha da coleguinha baxotinha? — Concluiu observando um calango vindo não sei de onde numa carreira alarmante e ploft, acertou-lhe uma cusparada de sarro preto na sua cabeça e um sorriso adoçou sua cara encardida.

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