As piscinas verdes do Rio e a importância do pH nos processos biológicos

As piscinas verdes do Rio e a importância do pH nos processos biológicos

Um fato chamou a atenção nas piscinas do Centro Aquático Maria Lenk onde acontecem as provas de saltos ornamentais e polo aquático nas olimpíadas do Rio 2016. A água estava verde!

De acordo com a FINA, Federação Internacional de Natação, o problema ocorreu devido ao vazamento de produtos químicos que alteraram a acidez da água, favorecendo a proliferação de algas. Apesar da estética ruim, as águas verdes não oferecem risco à saúde dos atletas de acordo com a federação. Embora o comitê organizador tivesse afirmado que o problema teria rápida solução, quatro dias se passaram e até a sexta-feira, dia 12, as águas ainda estavam verdes.

Mas por que não está sendo fácil resolver o problema?

Para entendermos a questão é necessário compreender a escala de medição da acidez chamada pH.

pH inferior a 7               = ácido

pH igual a 7                   = neutro

pH superior a 7             = alcalino

Substâncias muito ácidas, como o ácido sulfúrico usado em baterias automotivas, têm pH próximo de 1,0. Já a água sanitária é muito alcalina (pH = 12,5). Além disso, a variação de apenas uma unidade na escala de pH implica em uma mudança de 10 vezes na acidez. O vinagre (pH = 3,0) é 100 vezes mais ácido do que o café (pH = 5,0).

Voltando ao problema nas piscinas olímpicas, o vazamento dos produtos químicos elevaram o pH da água, tornando-a mais alcalina. Somando-se esse fato ao calor tradicional do Rio de Janeiro as algas encontraram um ambiente ideal e se reproduziram rapidamente. A tonalidade incomum das águas surgiu porque as algas são “plantas minúsculas” de cor verde devido à clorofila.

Não existe um “antídoto químico” capaz de resolver o problema?

Substâncias capazes de decantar a sujeira não costumam ser eficazes para eliminar as algas. Isso por que elas fazem fotossíntese todo o tempo, gerando micro bolhas de oxigênio que as tornam menos densas e constantemente em suspensão na água.

Assim, a solução é matar as algas usando cloro ou, em casos mais severos, um algicida. Depois o pH da água deve ser mantido sempre entre 7,2 e 7,6. O problema nesse caso específico é que a adição desses produtos químicos pode gerar muita irritação na pele e mucosas dos atletas, principalmente nos olhos. Por esse motivo o treino dos saltos ornamentais na última sexta, dia 12, foi cancelado.

Não costumamos pensar nisso, mas pequenas alterações de pH podem prejudicar nossos processos fisiológicos e bioquímicos. Nosso sangue, por exemplo, deve possuir valores de pH sempre entre 7,36 e 7,42. Um pH inferior a 6,95 pode provocar coma e valores acima de 7,75 podem causar convulsões graves.

No nosso estômago, o pH muito ácido entre 1,5 e 2,0 do suco gástrico, formado por ácido clorídrico e enzimas, é necessário para a digestão acontecer adequadamente. Já o pH ideal no esôfago é próximo de 7,0 e por isso as pessoas com refluxo costumam sentir aquela sensação desagradável de “queimação”.

Paulo Henrique C.P. Tavares é professor do Ibmec-MG com formação em química pela UFMG e doutorado em engenharia de materiais pela UFOP.

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Paulo Henrique C.P. Tavares - Opinião Pública

Paulo Henrique C.P. Tavares é professor do Ibmec-MG com formação em química pela UFMG e doutorado em engenharia de materiais pela UFOP.

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